quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

I dont fly too far

I’ll be away
But still thinking
As I always am
Restless mind
Hopeful heart
Unsettled creature
I’ll be away
But still dreaming
This impossible dream of mine

A meus pais

Pai, mãe

Onde está o amor?

No encontro de nossas mãos às das pessoas que amamos?

No beijo que damos em quem queremos bem?

Nos olhos que enxergam o objeto de nossa devoção?

Não!

O amor habita nosso coração

Por isso amamos quem está longe

Eis aí a prova da eternidade do amor

Porque não há distância ou tempo que o faça morrer

E se amamos quem partiu

É porque esse alguém também nos ama

E esse sentimento, o maior de todos

Nos une para sempre

Nada acabou, portanto

Estamos apenas nos intervalos dos momentos mais felizes

Para aprendermos algumas lições

Mas tudo existe com uma força inexorável

Eterna, vital

Aprendamos a acreditar nisso

Na eternidade da vida

Na eternidade de Deus

Porque isso significa, no fim do caminho

A eternidade do amor

Que nunca morre

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Miriam

Pediram que não chorássemos

Pediste que não chorássemos

Pedi que não chorássemos

Mas sabe

Há dias

Há músicas

Há memórias

Há remorsos

Há nossa impotência em te salvar

Então,

Perdoa-me a fraqueza

Perdoa-me o egoísmo

Perdoa-me por ter chegado tarde demais

Perdoa-me quando não te ouvi

Perdoa-me quando preferi olhar pro outro lado

Perdoa-me quando não te ajudei

Perdoa-me quando não fui teu irmão

Perdoa-me estas lágrimas

Perdoa, perdoa, perdoa

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

se alguém souber, me conte

Tens o olhar duro, como um guarda de rainha. E teus olhos são como teu coração, ou este é ainda mais duro. Hermético. Fechado a vácuo. Asséptico. Às vezes me ocorre que ao invés daquele músculo dentro do peito, carregas uma enorme barra de gelo, que não derrete e não amolece, porque o calor não lhe faz nenhum efeito. Assim te considerando, diria que não te conheço, que não sei quem és, ou talvez tenha conhecido uma cópia tua, um clone, um projeto que saiu-se melhor que o original. Ou era um farsante. Ou eu estava bêbado. Ou tudo era pura ilusão de ótica.

domingo, 21 de dezembro de 2008

walking on a broken glass

De todas as coisas, quero te dizer que sei. Tudo. Conheço-te os movimentos, as reações às ações. Há um jogo de puxa e empurra, de gato e rato, de positivo e negativo, que impede que ocupemos o mesmo espaço. Há uma repulsão que na verdade é atração. E sabe quando sei mais? Quando o acaso se ocupa do enredo, quando não há tempo para teus gestos milimetricamente pensados, para ensaios ou palavras decoradas, aquelas tuas, mais ridículas que o discurso de um vendedor de enciclopédia. Nesses dias te trais, não és senhor de ti, não tens um abrigo para proteger-te. Estás lá, mais transparente que vidro. Atravesso-te com meus olhos. Vejo teus órgãos internos em movimento, vejo-te mais do que nu. Vejo o que és e quem és. Mas isso de nada me serve. Porque daqui até a eternidade parece ser esse o único curso dessa estória, essa bizarra estória entre mim e tu.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

viagem ao centro da terra

Sabe o que descobri? Que sou uma cebola. Não, não a da salada. Na verdade, sou como uma cebola. E cebola tem camadas, muitas, uma após a outra. Comecei a retirá-las há um bom tempo. Primeiro a casca. Esfarelava, esfarelava, não saía toda. Depois é que vieram as camadas, mas parece nunca ter fim. Tal qual a dita cuja, deve haver um âmago, um centro. Desconfio ser meu coração, minha alma, meu subconsciente, ou tudo isso junto, mas não cheguei a lugar nenhum. O fato é que nem sei o que estou procurando. E também tem isso: eu sou é muito cebola, porque nessa coisa toda não é que choro? Pronto. Paro lá onde estou e deixo pro dia seguinte. Só que essa cebola não estraga, não fica escura, não apodrece. Ela só faz chorar, mas continua lá, intacta, esperando que eu tire mais uma camada, que eu vá mais fundo, que eu descubra mais coisas e que fique curioso por desvendar o que está embaixo. Morte às cebolas.

buscai e nem sempre achareis

Se me visto agora e saio pelas ruas, em cada esquina, o que procuro?

Quando fecho meus olhos depressa, ainda acordado, que alívio espero encontrar dentro de mim?

Quando abandono meu corpo, tantas vezes, cada dia, cada noite, que caminhos percorro?

Ah, nem sei quem sou de verdade

Talvez devesse ficar nu diante de um espelho, por horas, olhando em meus próprios olhos

Este estranho que me acompanha desde que nasci

Talvez ouvisse as palavras contidas nesse grito preso à garganta

Talvez isso me bastasse para borrar e reescrever minha vida

Ou talvez tivesse a coragem de desapropriar-me delas, entregá-las ao mundo

Quem ouviria? Ouviriam?

Ou diriam: pobre criatura

Mas não era eu quem acreditava que as coisas existem por si mesmas?

Que há uma força que as domina?

Quero ser salvo pela metafísica, pelo que imperfeitamente conheço dessa outra realidade

Porque o mundo real me dá com uma mão

Mas maldoso e traidor, me retira tudo com a outra

E nisso, se Deus existe, não há Justiça

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

por agora, peço a bondade de Deus

Os dias de tormenta

A malícia das criaturas

A falta de verdade

A mentira

Peço a Deus a força necessária

A paz, o equilíbrio, a confiança

Não é assim que se reafirma a fé?

Ou as coisas somente vão bem quando tudo está bem?

A vida não é feita de mil alfinetadas?

Mil agulhadas que nos ferem?

Mas serão elas mais fortes que os bálsamos que caem dos céus?

Que as alegrias recolhidas em outros instantes?

Fecho os olhos e afasto o que não me pertence

O que não sou

O que não faz parte de mim

O mal só me atinge se em meu coração houver lugar para ele

Preciso da força para perdoar, para entender

Aí está a sabedoria, aí está a verdadeira evolução

Aí a lição de amor que preciso aprender, ainda

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Laura

Era uma manhã arrastada, sem pressa. A pouca luminosidade que penetrava pelas frestas da janela, em razão da chuva fina que insista em cair sobre o telhado, ajudava na preguiça. Mas a verdade é que Laura, se pudesse, ficaria na cama para sempre. Para sempre era um exagero dizer, mas naquela manhã de sábado é assim que ela se sentia. Estava acordada há um bom tempo, mas não havia aberto os olhos. Divertia-se com o ruído da água sobre as telhas, que depois passava pela calha e por fim terminava naquele gotejamento duro, espesso, que caía rente à janela. Sempre gostara dos dias de chuva. A água e seus mil sons em contato com as superfícies duras. Talvez por isso ainda continuasse ali, sem abrir os olhos, porque no instante que o fizesse tudo desapareceria, e de alguma forma ela ainda precisava daquilo, do ruído fino da água dissolvendo a poeira, limpando todas as coisas. Às vezes julgava-se louca por ter esses pensamentos, mas era inevitável imaginar que o mundo precisava de um banho, exatamente como as pessoas. Num impulso, abriu um olho, esperou um pouco e depois o outro. Deu de cara com aquele grande urso de pelúcia, branco, com gravata e boina vermelhas. Ele estava lá há tanto tempo e é estranho que ela não o notasse como agora. Mesmo sonolenta, podia observá-lo, já meio amarelado, os olhos negros como se fossem dois botões de camisa, sentado na cadeira ao lado da cama. Tudo lhe veio à mente como um filme, num instante: a alegria daquele dia, há 10 anos. A festa de 15 anos e o grande embrulho de papel celofane rosa choque, seu grito de alegria ao abri-lo, a risada dos amigos, seu primeiro beijo em seu primeiro namorado na frente dos pais. Aquilo lhe fez bem. Sorriu. Olhou para cima e notou as mil estrelinhas colodas ao teto, um pedido feito aos pais quando estava na 3ª série, porque no escuro brilhavam como se fossem de verdade e isso parecia acalmá-la na hora de dormir. Delas também parecia ter se esquecido, tal qual a coleção de bonecas – trinta e sete, exatamente – perfeitamente acomodadas nas prateleiras das paredes. Tudo havia se tornado parte de um cenário a que ela tinha se acostumado e agora cada coisa parecia reassumir seu lugar, sua importância. Havia uma cumplicidade entre ela e cada objeto daquele quarto, como se sua estória pudesse ser contada através de todas aquelas coisas, numa seqüência cronológica até quando era apenas um bebê. Por isso recusara-se a mudar a decoração, como todas suas amigas fizeram tantos anos antes. Uma porta se abriu e com isso todos aqueles pensamentos se dissolveram. Era a mãe. Conhecia-lhe os passos, o som dos chinelos contra o tapete que cobria o chão do corredor. Também sabia o ruído de cada porta da casa. Aos poucos todos foram acordando. Ouviu ao longe a conversa da mãe e da tia na cozinha, o som de pratos, o arrastar das cadeiras. Sentiu o aroma de café. Havia uma animação, uma agitação incomum. E ela sabia o por que de tudo aquilo. A própria tia, irmã da mãe, havia dormido ali para ajudar nos preparativos. Laura sentou-se na cama e, apoiando as mãos no colchão, levantou-se. Olhou-se no espelho. Notou a magreza que sempre lhe poupara grandes sacrifícios na vida. Não sabia o que era uma dieta. Tudo lhe servia. Nisso tivera sorte.Reconhecia, no entanto, que não era propriamente bonita, mas que tinha um certo charme, uma graça natural, além daqueles longos cabelos castanhos claros, herdados da avó. Estava satisfeita. Passou as mãos pelo rosto e pelos cabelos e os ajeitou para trás. Calçou os chinelinhos e foi até a janela. Abriu somente uma parte, o suficiente para ver o dia cinzento e chuvoso. Sim, ela gostava de chuva, mas torcera para que não chovesse naquele dia, e agora isso. Não havia remédio. Abriu a porta e ouviu que todos tomavam café na copa: a mãe, a tia, o pai, os dois irmãos. Falavam do mesmo assunto, é claro. Ao passar pelo quarto de costura, viu o vestido pendurado num cabide, bem alto, o véu arrastando um pouco pelo chão. Era cópia exata do vestido usado pela mãe no dia de seu próprio casamento. O original havia sido desmanchado tempos depois e transformado num vestido de festa, e se perdera com os anos. Ela ficou ali algum tempo, pensando no significado de tudo aquilo. Olhou para trás, para seu quarto, viu o urso de pelúcia, as bonecas, parte de sua cama desfeita, a janela entreaberta, a chuva caindo como se fossem riscos delgados. Agora sabia de onde vinha aquela preguiça. Era sua despedida. Era o adeus àquele mundo que conhecia tão bem. Mas não havia tristeza. Virou-se novamente e desceu as escadas com pressa, sorrindo. Estava com fome e tinha muito o que fazer.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

matar-se, morrer-se e viver

Ocorreu-me a morte. O desejo simples e direto de morrer. Deixar de viver, de existir, a partida, um espólio de coisas e pessoas para trás. Falo do suicida morto e do suicida vivo. Sim. Há uma diferença entre o desejo de morrer e o de matar-se. Matar-se é tão corajosamente covarde, enquanto querer morrer é duas vezes covarde. Há uma coragem grotesca e repulsiva para quem se mata. Lamenta-se o suicida, mas reconhece-se o ato de bravura de sorver o veneno, de puxar o gatilho ou de atirar-se no vazio. Nisso, sim, há coragem. A covardia, porém, está em bater a porta e deixar tudo para trás, sem resolução, a intempestividade, o ato sem volta. No desejo de morrer a covardia é dupla. Não há peito sequer para o ato final, e quer-se fugir da vida. Pede-se ao destino ou a quem seja uma saída, um desfecho. A ambos a piedade. Para os que desistem da vida e partem e para os que ficam. Para aqueles há, ao menos, a atitude tomada, embora trágica. Um último ato que põe a perder todos os outros, mas um ato. Para estes, não há nada: apenas uma vida não-vivida, sem projetos, sem sonhos, um empurrar dos dias. São tão mais covardes. Novamente a palavra: covardia. Pergunto-me se não será mil vezes mais condenável quem desistiu de viver e continua vivo, sem riscos. Há algo de repugnante no ato de de viver por viver, à espera de que algo ou alguém acabe com esse suplício, Deus, o diabo, o destino ou a degeneração celular. Quantas pessoas há que vivem sem rumo, sem esperança, que vivem em estado letárgico. Ocorreu-me a morte e com isso me dei conta de que viver para mim é essencial, que sinto-me vivo porque tenho mil sonhos e esperanças, porque espero, porque acredito, porque os minutos me são essenciais. E porque sou feliz.

não chego longe com estes sapatos apertados

Há outro alguém que habita em mim

Que sonha a liberdade

Que tem sede de vida

De verdade, toda ela

A que foi vivida

A que não foi vivida

A que está dita

A que foi ouvida

A que foi respondida

Mas no silêncio, em silêncio

Há mais coragem nele

Pobre outra criatura

Refém da covardia

Presa fácil da vida

Um mundo que diz não, não

Quando o desejo diz

Sim, sim, sim, sim

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

de meu só tenho o coração

À vida peço pouca coisa

Não é muito, de verdade

Peço as músicas que me embalaram as horas

Os beijos que me molharam os lábios

As palavras que me emocionaram a alma

Os sorrisos que me tiraram do chão

As promessas da juventude

As lágrimas de alegria

Os dias ensolarados

Os momentos descuidados

O mergulho nas águas do mar

As cantigas de ninar

Os tempos de criança

Os tempos de adulto

E os tempos maduros

A memória dos dias vividos

E a felicidade incontida no peito

A ternura dos amigos

O amor de filho

O amor de pai

O amor de mãe

O amor

E toda forma de amor

Peço à vida pouca coisa

Somente o que meu coração pode carregar

O que posso levar a qualquer lugar

E que o tempo nunca, nunca, nunca vai apagar

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

a falta que o ar me faz

Acordo sufocado, com pensamentos pulverizados em milhares de partículas. Não há uma idéia toda. São como pequenas luzes num quarto escuro, que acendem e apagam rapidamente, aqui e ali, e não se pode ver o conjunto. Finjo. Finjo que não percebo, numa seqüência de atos banais. Finjo-me banal também, mas é em vão. Há uma inquietude que me espreita o tempo todo e que me sussurra palavras, ações, que me desafia e instiga. Quero livrar-me disso tudo, quero um dia comum, quero-me comum. Quero desatar esses nós que me prendem a pensamentos que me prendem a coisas que me prendem a lugares que me prendem a pessoas que me prendem a desejos e que me prendem a mim mesmo. Quero-me vulgar, simples, quero-me dois mais dois são quatro. Quero acordar e não sufocar.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

saber já é meio caminho para esquecer

Não digo daquilo que não sei. Digo da verdade que escoa como a água, e que ninguém pode deter. Digo dos gestos, que derrogam as palavras. Nem tudo são palavras. Digo desse universo de mil coisas suspensas no ar. Digo do que percebo, e só percebo o que há. Não há o não-ser. Digo do que está no intervalo entre o concreto e o imaginário, mas que também é. Digo do momento antes do momento, que sinto vir. Digo do meus olhos que captam a luz e as imagens. Digo dessa realidade que insiste em negar a si mesma. Digo do que me atravessa o cérebro quando fecho os olhos e que continua lá, mesmo quando os abro novamente. Digo da minha não-loucura. Digo de tudo o que sempre esteve aqui e aí, contido, reprimido, sufocado pela necessidade de não-ser. Digo daquilo que é porque é, pela força intrínseca de ser. Digo somente do que sei, e só sei porque é, e não porque sei.

sábado, 29 de novembro de 2008

leia antes que eu apague

Preciso confessar que preciso ver. Sim, ver, por que não? Há quem dissesse de coisas mais importantes, como existir, ser, crescer, alcançar, melhorar, e...[pausa]... deixemos de lado essa lista, que ela é enorme e cansativa.Mas, de minhas prioridades, coroei o verbo ver. Sim, sim. Porque, se bem me lembro, para todas as coisas precisamos ver. Exceção aos cegos, mas eles não são o tema desta conversa. Volto ao verbo, agora conjugado: Eu vejo, tu vês, nós vemos. Ah, sim, ver é um ato bilateral, porque ver sem ser visto é como comida sem sal ou namoro sem beijo. Acho que os exemplos falam por si. Para comer ou beber basta-me eu. Para respirar, idem, idem. E para tomar banho? Não entro em detalhes de certos temas picantes, mas até para isso podemos agir sozinhos, e acho que fui bem compreendido. Ver, porém, esse ato de contemplar o mundo e reconhecer-se nele, de projetar-se para fora de si e de trazer o que está fora para dentro, não, esse não é um momento solitário, porque requer o cenário e os atores, ou só o cenário, ou só os atores, ou um ator que seja. Refiro-me, por certo, a tudo o que não sou eu. Portanto, ver é, de todos os sentidos, o mais dependente, o mais subserviente. E, sendo assim, o que mais vicia. Confesso que estou totalmente submisso a esse momento, o de ver. Tornou-se a pior das drogas, a mais perigosa, como se me faltasse o ar. Vejo, vejo, não vejo, não vejo, vejo, vejo, vejo, vejo, não vejo, não vejo. Também posso dizer: sou visto, sou visto, não sou visto, não sou visto, não, não, não, sim, sim, sim e assim por diante. Eis o emaranhado em que me meti. Há sinônimos: fria/roubada/furada. Qualquer dia revogo esta eleição, destituo o verbo, mando-o ao inferno e acaba-se o problema.

.....

Hoje ocorreu-me viver sem memórias

Nenhum passado

A morte solene de todas as estórias

Um eu sem mim

Um antídoto

A liberdade, enfim

Pura ironia

Com menos de um minuto

Dei-me conta dessa grande fantasia

A vida não se apaga de fato

Que para tal sorte de coisas

Até o diabo haveria de recusar-me um pacto

De Clarice Lispector o instigante"DÁ-ME TUA MÃO"

Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta.

De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

carta a mim mesmo

Na vida quero todas as coisas

A alegria e a melancolia

Pois se choro minha tristeza com lágrimas

Recolho com gratidão tantas dádivas

Na vida quero os bons e os maus sentimentos

Para transformá-los na força de meus desejos

Na vida quero a angústia, as quedas e os erros

Para superá-los pela esperança e pelos acertos

Na vida não quero a felicidade pronta, acabada

Quero-a recompensa ao fim da estrada

Na vida não quero o egoísmo da solidão

Porque sem amor tudo perde a razão

E sendo esses meus únicos desejos

Peço a Deus , que se um dia

Bem longe deste dia

Eu me esquecer desta poesia

Seja ela, de alguma forma, sempre

Meu norte e meu guia

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

minhas duas vidas

Anoitece

Fecho os olhos

Do meu corpo não sou mais refém

Mergulho nesse outro universo

Esse outro mundo, tão-perto

Não tenho pés

Não há cansaço

Sou como um pássaro no espaço

Sou o ontem, o hoje

Sou meu futuro

Mas amanhece

Abro os olhos

Volto dessa doce morte

Não sei se nisso há sorte

Mas volto, ainda

Não é hora

Não é agora

Há mais dias de vida

Nessa jornada comprida

terça-feira, 25 de novembro de 2008

de todas as coisas, a que ficou não dita

Se fosse um cão, te cheirava o corpo

Se fosse um gato, me esfregava todo

Se fosse uma cobra, me enrolava em ti

Se fosse um vampiro, te sugava o pescoço

Se fosse tua roupa, te acariciava a pele

Se fosse um pouco de água, passeava por tua boca

Se fosse água benta, te bendizia a alma

Se fosse um punhado de ar, invadia teus pulmões

Se fosse o mar, te convidava a entrar

Se fosse um esconderijo, te levava lá comigo

Se fosse um lençol macio, me deitava contigo

Se fosse uma manhã de sol, saía contigo à rua

Se fosse um dia de chuva, ficava contigo à toa

Se fosse a alegria, comigo te ririas

Se fosse o universo, te o dava de presente

Se fosse Deus, te faria um anjo

Se fosse todas as palavras, te escrevia um livro

Mas se fosse apenas três delas

Olhando-te, diria:

Eu te amo

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

riam-se

Zero, minha inspiração é zero

De minhas idéias

Não sai nada do que quero

Ai que desdita

Pego o lápis, rabisco a folha

Mas não acabo a escrita

Mas porque preciso terminar este poema

Senão arrumo um grande problema

Proponho outro tema:

Pegue um balde e um esfregão

Junte a isso muita água e sabão

E mãos à obra

Pois um bom banho nunca fez mal ao cão!

english troubadour

Pretending to feel what we feel not

Pretending to be what we are not

Life goes on til I dont know what

Maybe we're not as hard as a rock

Too wrapped up to feel the shock

That we're just wasting time'round the clock

um risinho já basta para salvá-la

Para um dia sem inspiração

Não te aflijas

Escreve qualquer coisa

Até mesmo uma oração

Porque os anjos irão ouvi-la

E ainda que tola, pobre ou sem rima

Não hão eles de ri-la

domingo, 23 de novembro de 2008

paixão

Peço-te um dia

Um fragmento dele

Um momento de emoção

Teus olhos em meus olhos

Tua respiração na minha

Sem segredos

Um dia sem mentiras

Sem desculpas

Só loucuras

Peço-te esse momento

As coisas de verdade

Um rio de sensações

Teu corpo, meu corpo

Teu cheiro, meu cheiro

Mil beijos

Não um devaneio

Não tu

Não eu

Nós

a terceira dimensão do nada

Um dia conto meu sonhos

Não, não aqueles enquanto durmo

Digo dos sonhos-vivos, os acordados

Aqueles que me vêm quando estou no trânsito

No trabalho, em casa, na farmácia

São sempre os mesmos, três ou quatro

Já se tornaram meus conhecidos, até converso com eles

Não, ainda não lhes dei nome, não quero tanta intimidade

Um sonho é um projeto (impossível, talvez, mas um projeto)

Não posso ficar íntimo, chamar pelo apelido

Desse jeito eles deixam de ser sonhos

E terei de inventar outros

E o caso é que estou muito satisfeito com estes

Já os conheço bem

Convivo com eles há décadas

Acho até que já os conhecia antes de nascer

Dessa forma, fico pensando se devo contar meus sonhos

Porque se meus sonhos são os sonhos de outros que também sonham

A quem eles irão de atender primeiro?

A mim ou aos outros?

Pronto, não conto nada

Que um pouco de egoísmo não faz mal a ninguém

E quanto aos meus sonhos, que se contentem com o anonimato

Que para isso são sonhos

vida, vida, vida....

Ai que a vida me escapa pelas mãos

Um punhado de areia

Para cada dia, um grão

Mas me escorregam todos

Vão ao chão

Desespero-me

Mas é em vão

Não há remédio

Não há solução

Não se prende a vida, não

Para isso não há permissão

sábado, 22 de novembro de 2008

no fim, nunca nada acaba

Se um dia eu me esquecer

É só porque guardei tudo bem escondido

Recolhi as memórias

Tranquei, pus num baú

Sumi com a chave

Mudei a casa, pintei as paredes

Vida nova, inteira

Se um dia eu não sonhar

É porque pedi aos anjos essa bondade

Porque preciso fechar os olhos e não pensar

Algumas horas ausente

Um vivo morto

Ou um corpo inerte

Mas que respira vida, inteira

Se um dia eu morrer

E hei de morrer

Destranco aquele baú

Pego tudo o que tem dentro

Ponho na bagagem

E vou lá pedir outra oportunidade

Uma outra vida, inteira

questioning

self-images

heart and thoughts coming out on poetry

guess I need some exposure

recognition/sympathy/admiration/

or what?

jogral

Um poema não é como um problema

Que chega num telefonema

Alguém do outro lado, e que blasfema

Um poema é como uma paixão

Que nos invade sem permissão

E no fim, é pura emoção

vai-te pra lugar nenhum

Há uma imensidão branca, alva

Onde habita minha alma

Mas nem por isso tenho calma

Há um lugar tão-bem escondido

Refúgio deste coração dorido

Onde busco um sentido

Há uma vida cheia de ilusão

Síntese de toda paixão

Mas nem por isso perdi a razão

Há uma vida toda, enorme

Na verdade tola, disforme

E é só isso com que estou conforme

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

depois penso o que dizer aqui...

Ó alma, como sois transparente

Por ti passam os dias, tantos,

Nem te ressentes

Ó alma inocente

Que te torturas por quem te mente

Melhor que estejas assim, ausente

Ao menos esqueces, e nem sentes

Ó alma que procuras o sonho distante

Teu destino é mais que este instante

Então aguarda, confiante

Longe desta vida beligerante

Pois tua hora está lá

Não muito adiante

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Fuga

Corro, sim

Nem disse que não corria

Corro, sim, todo dia

Corro dos sonhos

Corro de mim mesmo, como um louco

Corro, corro

E acho que a cada dia mais um pouco

Corro quando durmo

Num devaneio noturno

Corro e nem perco o fôlego

Corro, mas isso é mais um desvario

Sou um trôpego

Corro, corro, tanto é o meu pranto

Corro, corro

E para meu espanto

Cá estou, no entanto

corre, corre, escreve logo, antes que isso te foge

Ah, poeta da parede lisa

E da página vazia

Confessa o que move teu dia

A busca incessante da rima

Ou verter as palavras

Da tua própria vida

Ah, poeta do teu único universo

A verdade é que achas-te submerso

Neste enredo sem sucesso

Não há um tom que te guie

Não há um santo que te ajude

Não há quem te tome pelas mãos

Só há os pensamentos sôfregos

Só há tais sentimentos atônitos

E já te vejo rabiscar estas palavras

Prontas, acabadas

E com elas vais voando

E mais nada

biografando-me

nada nada nada nada nada nada

tudo tudo tudo tudo tudo tudo

um e outro, outro e um

sou tudo e nada sou

Fernando Pessoa é sempre inspiração pra este (pseudo) poetinha escondido aqui neste blog

"Sossega, coração! Não desesperes!

Talvez um dia, para além dos dias,

Encontres o que queres porque o queres.

Então, livre de falsas nostalgias,

Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!

Pobre esperença a de existir somente!

Como quem passa a mão pelo cabelo

E em si mesmo se sente diferente,

Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo!

Dorme!

O sossego não quer razão nem causa.

Quer só a noite plácida e enorme,

A grande, universal, solente pausa

Antes que tudo em tudo se transforme."

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Quando era criança minha avó e minha mãe me diziam esta oração para dormir...

Jesusito de mi vida

Eres niño como yo

Por eso te quiero tanto

Que te doi mi corazón

Tomalo, tuyo és, mío no

Angel de mi guarda

Dulce companhia

No me desampares ni de noche ni de día

Por que si no me perdería

Con Dios me acuesto

Con Dios me levanto

La Virgem Maria

I el Espíritu Santo

este é o 'poema inquieto'.. leio, leio e nunca me satisfaço....

Vem, não tenhas medo

Chega-te aqui, vem sozinho

Despido de tudo o que tens escondido

Abandona essa roupa que te pesa tanto

Tem fé, olha em meus olhos

Fica aí um instante

E já saberás quem sou

Descobrirás a verdade

Vê?

Disse-te que não temeras

Sou tão-menos do que imaginastes

Sou apenas o que vai em meu peito

E mais todos estes pensamentos

É tão-pouco, bem sei

O que tenho para dar-te

Mas peço,

Aceita esta alma sem disfarce

terça-feira, 18 de novembro de 2008

à noite

Aonde vão esses homens e mulheres?

Sigo-os com os olhos, corro

Tento alcançá-los

Nem mesmo vejo seus rostos

Andam com pressa e vão pelas sombras

Quem serão?

Sequer olham para trás, nem me percebem

Ouço os passos apressados,

Vão juntos em marcha

Perco as forças, desisto

Agora já vão longe

Mais um instante

E somem pelos vãos da cidade

Quem serão?

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

o que falar sobre a paixão? Não, não, sobre o amor eterno?

ERA O BEIJO O QUE ELE QUERIA

AH, O BEIJO

O BEIJO E TODAS AS OUTRAS COISAS

O MOMENTO ANTERIOR

OS OLHOS SE ENCONTRANDO

OS CORAÇÕES BATENDO MAIS RÁPIDO

PASSOS OS APROXIMANDO

O ARREPIO CORTANDO A ESPINHA NUM SOBE, DESCE, SOBE, DESCE

MAIS PERTO, MAIS PERTO

OS OLHOS SE FECHANDO

OS CORPOS PARECENDO GIRAR

O GOSTO DA BOCA, DO BEIJO

MAS ERA MAIS O QUE ELE QUERIA

O ENCONTRO

NUM ABRAÇO QUE OS TORNASSE SOMENTE UM

NUM FRENESI QUE OS TIRASSE FORA DO TEMPO E DO ESPAÇO

QUE OS FIZESSE PERDER A NOÇÃO DA REALIDADE

E CRER QUE O MUNDO PODERIA ACABAR ALI, NAQUELE MOMENTO

PORQUE, AO MENOS UMA VEZ

POR UM SEGUNDO, OU UM ÁTIMO DELE

HAVERIA MUITO MAIS DO QUE A FELICIDADE ALI

HAVERIA O ÊXTASE DE QUEM VERDADEIRAMENTE AMOU!

A pray!

Time, time, time

Will it change a lie

Or just let the real thing die?

Time, time, time

Will it change who we are

And put everything behind, so far?

Time, time, time

I guess this could only be a disguise

For being afraid of the joy of life

Time, time, time

Why do I waste my time

Trying to figure out somebody else’s mind?

Time, time, time

I ask you plain and right:

Will I find peace for my heart?

Or at least get any less hard?

Time, time, time

Will this ever stop?

Because I’m too tired of this plot!

domingo, 16 de novembro de 2008

Mim e ti

Tudo, a cada instante

A cada hora, todos os dias

Quando respiro

Quando acordo ou vou dormir

Cada pensamento, este momento e o anterior

Tudo em minha vida

Desde que nasci

E talvez até quando me levem para longe daqui

Tudo, meus gestos, o que quero e meus desejos

Tudo, tudo, porque apenas isso

E só isso faz sentido para eu viver

sábado, 15 de novembro de 2008

Alma!

Vai, vai na onda da esperança

Leva o coração que anseia a liberdade

Atravessa o tempo, esquece o que passou

As lágrimas não são só daqueles que desesperam

Mas também dos que procuram a felicidade

Vai, vai, fecha os olhos e percebe o mundo ao teu redor

A alma parece sair desse corpo que a prende ao chão

Voa com teus pensamentos para longe de ti mesma

Tantas luzes surgem e te carregam com elas

Vai, vai, alma que não descansa

Vai, já te disseram

Tua missão é sempre buscar

Confia, confia, alma que pede

Pois tu hás de achar

Hás de chegar

E já não haverão lágrimas para secar

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Eu acredito em almas gêmeas, e parece que Emmanuel também..... no livro '50 Anos Depois', ditado a Chico Xavier, temos essa linda afirmação:

‘As almas gêmeas amam-se em curso de eternidade, confundindo-se na alternativa contingente dos elos do espírito. Aspiram a uma felicidade pura e imortal e só vivem felizes quando integradas na união eterna e indissolúvel’

CONTO 1

Ia a passos rápidos, como a vencer logo aqueles quarteirões até a casa.Nem sabia por que tinha pressa, ninguém o esperava .A esposa o havia deixado, e nem o cachorro tivera a bondade de lhe poupar. Então, era sempre assim, fim de tarde, saltava do ônibus naquela esquina, e fazia exatamente o mesmo trajeto, percorrido com ansiedade, olhar fixo à frente, quase hipnotizado pela idéia de girar a chave na porta, abri-la, e finalmente entrar. Talvez esperasse que ela tivesse voltado, ou que tivesse devolvido o cachorro, mas nada. Entrava na casa e o silêncio o torturava, depois de frustrá-lo; até mesmo uma carta dela poderia aliviá-lo, mas em 3 anos nada mais do que contas a pagar e cartões de natal enviados por bancos e lojas.Nem mais se incomodava em olhar o aparelho que registrava as chamadas; talvez tivesse medo de mais frustrações – mas a verdade é que sentia-se sozinho. A vizinhança dissera que ela fugira com um homem rico, mas ele nunca soube a verdade, ela ao menos havia deixado um bilhete, uma explicação, nada; poderia ter ligado para seu melhor (e único) amigo, mas nem isso. Naquele dia, quando chegou do trabalho, com uma ansiedade diferente, de felicidade, sua vida parecia acabar: a casa revirada, armários vazios, o cachorro não estava no quintal – pensou, primeiro, tratar-se de um assalto, claro, só poderia ser um assalto. Aos poucos foi-se dando conta da verdade: ela o havia deixado. Não percebera nenhum sinal, ela nunca tivera reclamado de nada, davam-se bem, nem mesmo brigavam. Vencido pela realidade, sentou-se no chão da cozinha, olhou ao redor, deitou-se e chorou até o dia seguinte. A partir de então sua vida resumia-se ao trabalho e à casa; não ia a qualquer outro lugar, senão para comprar o necessário. Não suportava aquele sorriso de deboche escondido no rosto de algumas pessoas, ou de pena no de outras. Não queria a compaixão de ninguém. Já lhe passara pela cabeça comprar outro cão, mas lhe parecia uma traição ao antigo animal, que ele mesmo escolhera – e pagara - , e ela, esgoisticamente, incluíra em sua bagagem. A verdade é que outro cão era como admitir que ela nunca mais voltaria, e ele, por mais que temesse isso, insistia em enganar a si mesmo. Talvez, se ela tivesse morrido, as coisas tivessem sido mais fáceis – ele seria o moço tão novo da rua (do bairro, do escritório, da cidade, enfim) que perdera a esposa, que lástima, que fatalidade, meu Deus; talvez as pessoas se apiedassem dele de outra forma, fazendo-lhe as vontades, convidando-o para ir aqui ou lá, trazendo-lhe mimos. Ele mesmo se sentiria orgulhoso de tantas atenções – enfim, a partida dela não seria tão dolorosa. Ao invés, ela lhe levara tudo, o amor-próprio, a dignidade, a alegria de viver e, por cima de tudo, o cão. Pensava em matá-la. Ah, sim, os sentimentos que nutria por ela eram tão fortes quanto ambíguos. Queria-a, desejava-a, ansiava em tê-la novamente em seus braços, mas a idéia de estrangulá-la com as próprias mãos lhe cruzava os pensamentos com uma morbidez que nunca sentira antes. Era incapaz de matar uma formiga, sua mãe dizia isso desde que era pequeno, e agora nutria esse pensamento todos os dias. Ela, a mãe, já havia morrido, graças a Deus, para lhe poupar a vergonha que sentia desde aquela sexta-feira, véspera de Carnaval. Ah, também isso ela (a traidora) havia levado embora: ele adorava os carnavais; não, não ia a clubes, não se fantasiava, mas gostava de sair à rua e acompanhar os blocos carnavalescos, cantando as marchinhas. Nem isso agora. Tinha 32 anos e nada lhe interessava, nem as moças que insistiam em se insinuar para ele. Elas lhe pareciam absolutamente iguais, e irritantemente gentis, de modo que as dispensava sem muita cerimônia . Outros três anos se passaram, e ele não lera um livro sequer, não tirara férias, não conversara com ninguém – senão o estritamente necessário – e agora já tinha 35 anos. As moças já não lhe davam qualquer atenção, não suspiravam, não faziam planos. Era um perdedor, isso sim, que ficasse só, diziam. Isso não lhe importava, nada lhe importava.

Às vezes, agora, já se esquecia dela, e até sorria quando se dava conta disso. Foi num dia assim, de outros pensamentos (quais?) que ele desceu do ônibus. Chovia muito e não trazia o guarda-chuva. Agora não andava apressado, corria, voava para molhar-se o menos possível. Odiava gripar-se. Quando chegou a casa, deteve-se no portão para procurar a chave, revirando os bolsos da calça; viu então, quase incrédulo, seus pés delicados metidos numa sandália que agora estava encharcada. Conhecia aqueles pés e poderia reconhecê-los em anos, séculos. Ela sentara-se de costas para a rua, na única cadeira da pequena varanda, e não o viu. Ele pensou em ir embora, mas lembrou-se de que teria de voltar e ela provavelmente ainda estaria lá. Também lhe ocorreu, em seguida, que havia desejado aquele momento – não, não daquele modo – por muito tempo, e não podia recuar. Agora estava completamente molhado, em pé, diante da casa. Atravessou o portão, mas a chuva produzia tamanho ruído que ela ainda não o notara. À medida que percorria o pequeno caminho pôde ver suas pernas, ainda úmidas. Ela trazia um vestido barato, bem diferente das roupas com que ele costumava presenteá-la. Quando alcançou a varanda, notou que ela apoiara o rosto nas próprias mãos, cabeça baixa, os cabelos escorridos, molhando-lhe a roupa. Nem lembrava aquela mulher de seis anos atrás. Havia algumas sacolas ao lado da cadeira; uma pequena bagagem. Ele entendeu tudo. Nesse momento ela o notou, e lentamente levantou o rosto. Não havia súplica em seu olhar; ou desespero. Parecia vazia, derrotada, sem forças. Ele já não queria matá-la, nem vingar-se, nem dizer-lhe o discurso que preparara por tantos anos. Tudo se desfez. Não disseram uma palavra. Ele se virou, pôs a chave na maçaneta e girou-a. A porta se abriu. Esperou. Ela se levantou, passou por ele e entrou. Ele depois, fechando a porta atrás de si. Seus olhos agora estavam marejados. A verdade é que ainda a amava.

(JIS)