I’ll be away
But still thinking
As I always am
Restless mind
Hopeful heart
Unsettled creature
I’ll be away
But still dreaming
This impossible dream of mine
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
A meus pais
Pai, mãe
Onde está o amor?
No encontro de nossas mãos às das pessoas que amamos?
No beijo que damos em quem queremos bem?
Nos olhos que enxergam o objeto de nossa devoção?
Não!
O amor habita nosso coração
Por isso amamos quem está longe
Eis aí a prova da eternidade do amor
Porque não há distância ou tempo que o faça morrer
E se amamos quem partiu
É porque esse alguém também nos ama
E esse sentimento, o maior de todos
Nos une para sempre
Nada acabou, portanto
Estamos apenas nos intervalos dos momentos mais felizes
Para aprendermos algumas lições
Mas tudo existe com uma força inexorável
Eterna, vital
Aprendamos a acreditar nisso
Na eternidade da vida
Na eternidade de Deus
Porque isso significa, no fim do caminho
A eternidade do amor
Que nunca morre
Onde está o amor?
No encontro de nossas mãos às das pessoas que amamos?
No beijo que damos em quem queremos bem?
Nos olhos que enxergam o objeto de nossa devoção?
Não!
O amor habita nosso coração
Por isso amamos quem está longe
Eis aí a prova da eternidade do amor
Porque não há distância ou tempo que o faça morrer
E se amamos quem partiu
É porque esse alguém também nos ama
E esse sentimento, o maior de todos
Nos une para sempre
Nada acabou, portanto
Estamos apenas nos intervalos dos momentos mais felizes
Para aprendermos algumas lições
Mas tudo existe com uma força inexorável
Eterna, vital
Aprendamos a acreditar nisso
Na eternidade da vida
Na eternidade de Deus
Porque isso significa, no fim do caminho
A eternidade do amor
Que nunca morre
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
Miriam
Pediram que não chorássemos
Pediste que não chorássemos
Pedi que não chorássemos
Mas sabe
Há dias
Há músicas
Há memórias
Há remorsos
Há nossa impotência em te salvar
Então,
Perdoa-me a fraqueza
Perdoa-me o egoísmo
Perdoa-me por ter chegado tarde demais
Perdoa-me quando não te ouvi
Perdoa-me quando preferi olhar pro outro lado
Perdoa-me quando não te ajudei
Perdoa-me quando não fui teu irmão
Perdoa-me estas lágrimas
Perdoa, perdoa, perdoa
Pediste que não chorássemos
Pedi que não chorássemos
Mas sabe
Há dias
Há músicas
Há memórias
Há remorsos
Há nossa impotência em te salvar
Então,
Perdoa-me a fraqueza
Perdoa-me o egoísmo
Perdoa-me por ter chegado tarde demais
Perdoa-me quando não te ouvi
Perdoa-me quando preferi olhar pro outro lado
Perdoa-me quando não te ajudei
Perdoa-me quando não fui teu irmão
Perdoa-me estas lágrimas
Perdoa, perdoa, perdoa
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
se alguém souber, me conte
Tens o olhar duro, como um guarda de rainha. E teus olhos são como teu coração, ou este é ainda mais duro. Hermético. Fechado a vácuo. Asséptico. Às vezes me ocorre que ao invés daquele músculo dentro do peito, carregas uma enorme barra de gelo, que não derrete e não amolece, porque o calor não lhe faz nenhum efeito. Assim te considerando, diria que não te conheço, que não sei quem és, ou talvez tenha conhecido uma cópia tua, um clone, um projeto que saiu-se melhor que o original. Ou era um farsante. Ou eu estava bêbado. Ou tudo era pura ilusão de ótica.
domingo, 21 de dezembro de 2008
walking on a broken glass
De todas as coisas, quero te dizer que sei. Tudo. Conheço-te os movimentos, as reações às ações. Há um jogo de puxa e empurra, de gato e rato, de positivo e negativo, que impede que ocupemos o mesmo espaço. Há uma repulsão que na verdade é atração. E sabe quando sei mais? Quando o acaso se ocupa do enredo, quando não há tempo para teus gestos milimetricamente pensados, para ensaios ou palavras decoradas, aquelas tuas, mais ridículas que o discurso de um vendedor de enciclopédia. Nesses dias te trais, não és senhor de ti, não tens um abrigo para proteger-te. Estás lá, mais transparente que vidro. Atravesso-te com meus olhos. Vejo teus órgãos internos em movimento, vejo-te mais do que nu. Vejo o que és e quem és. Mas isso de nada me serve. Porque daqui até a eternidade parece ser esse o único curso dessa estória, essa bizarra estória entre mim e tu.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
viagem ao centro da terra
Sabe o que descobri? Que sou uma cebola. Não, não a da salada. Na verdade, sou como uma cebola. E cebola tem camadas, muitas, uma após a outra. Comecei a retirá-las há um bom tempo. Primeiro a casca. Esfarelava, esfarelava, não saía toda. Depois é que vieram as camadas, mas parece nunca ter fim. Tal qual a dita cuja, deve haver um âmago, um centro. Desconfio ser meu coração, minha alma, meu subconsciente, ou tudo isso junto, mas não cheguei a lugar nenhum. O fato é que nem sei o que estou procurando. E também tem isso: eu sou é muito cebola, porque nessa coisa toda não é que choro? Pronto. Paro lá onde estou e deixo pro dia seguinte. Só que essa cebola não estraga, não fica escura, não apodrece. Ela só faz chorar, mas continua lá, intacta, esperando que eu tire mais uma camada, que eu vá mais fundo, que eu descubra mais coisas e que fique curioso por desvendar o que está embaixo. Morte às cebolas.
buscai e nem sempre achareis
Se me visto agora e saio pelas ruas, em cada esquina, o que procuro?
Quando fecho meus olhos depressa, ainda acordado, que alívio espero encontrar dentro de mim?
Quando abandono meu corpo, tantas vezes, cada dia, cada noite, que caminhos percorro?
Ah, nem sei quem sou de verdade
Talvez devesse ficar nu diante de um espelho, por horas, olhando em meus próprios olhos
Este estranho que me acompanha desde que nasci
Talvez ouvisse as palavras contidas nesse grito preso à garganta
Talvez isso me bastasse para borrar e reescrever minha vida
Ou talvez tivesse a coragem de desapropriar-me delas, entregá-las ao mundo
Quem ouviria? Ouviriam?
Ou diriam: pobre criatura
Mas não era eu quem acreditava que as coisas existem por si mesmas?
Que há uma força que as domina?
Quero ser salvo pela metafísica, pelo que imperfeitamente conheço dessa outra realidade
Porque o mundo real me dá com uma mão
Mas maldoso e traidor, me retira tudo com a outra
E nisso, se Deus existe, não há Justiça
Quando fecho meus olhos depressa, ainda acordado, que alívio espero encontrar dentro de mim?
Quando abandono meu corpo, tantas vezes, cada dia, cada noite, que caminhos percorro?
Ah, nem sei quem sou de verdade
Talvez devesse ficar nu diante de um espelho, por horas, olhando em meus próprios olhos
Este estranho que me acompanha desde que nasci
Talvez ouvisse as palavras contidas nesse grito preso à garganta
Talvez isso me bastasse para borrar e reescrever minha vida
Ou talvez tivesse a coragem de desapropriar-me delas, entregá-las ao mundo
Quem ouviria? Ouviriam?
Ou diriam: pobre criatura
Mas não era eu quem acreditava que as coisas existem por si mesmas?
Que há uma força que as domina?
Quero ser salvo pela metafísica, pelo que imperfeitamente conheço dessa outra realidade
Porque o mundo real me dá com uma mão
Mas maldoso e traidor, me retira tudo com a outra
E nisso, se Deus existe, não há Justiça
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
por agora, peço a bondade de Deus
Os dias de tormenta
A malícia das criaturas
A falta de verdade
A mentira
Peço a Deus a força necessária
A paz, o equilíbrio, a confiança
Não é assim que se reafirma a fé?
Ou as coisas somente vão bem quando tudo está bem?
A vida não é feita de mil alfinetadas?
Mil agulhadas que nos ferem?
Mas serão elas mais fortes que os bálsamos que caem dos céus?
Que as alegrias recolhidas em outros instantes?
Fecho os olhos e afasto o que não me pertence
O que não sou
O que não faz parte de mim
O mal só me atinge se em meu coração houver lugar para ele
Preciso da força para perdoar, para entender
Aí está a sabedoria, aí está a verdadeira evolução
Aí a lição de amor que preciso aprender, ainda
A malícia das criaturas
A falta de verdade
A mentira
Peço a Deus a força necessária
A paz, o equilíbrio, a confiança
Não é assim que se reafirma a fé?
Ou as coisas somente vão bem quando tudo está bem?
A vida não é feita de mil alfinetadas?
Mil agulhadas que nos ferem?
Mas serão elas mais fortes que os bálsamos que caem dos céus?
Que as alegrias recolhidas em outros instantes?
Fecho os olhos e afasto o que não me pertence
O que não sou
O que não faz parte de mim
O mal só me atinge se em meu coração houver lugar para ele
Preciso da força para perdoar, para entender
Aí está a sabedoria, aí está a verdadeira evolução
Aí a lição de amor que preciso aprender, ainda
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Laura
Era uma manhã arrastada, sem pressa. A pouca luminosidade que penetrava pelas frestas da janela, em razão da chuva fina que insista em cair sobre o telhado, ajudava na preguiça. Mas a verdade é que Laura, se pudesse, ficaria na cama para sempre. Para sempre era um exagero dizer, mas naquela manhã de sábado é assim que ela se sentia. Estava acordada há um bom tempo, mas não havia aberto os olhos. Divertia-se com o ruído da água sobre as telhas, que depois passava pela calha e por fim terminava naquele gotejamento duro, espesso, que caía rente à janela. Sempre gostara dos dias de chuva. A água e seus mil sons em contato com as superfícies duras. Talvez por isso ainda continuasse ali, sem abrir os olhos, porque no instante que o fizesse tudo desapareceria, e de alguma forma ela ainda precisava daquilo, do ruído fino da água dissolvendo a poeira, limpando todas as coisas. Às vezes julgava-se louca por ter esses pensamentos, mas era inevitável imaginar que o mundo precisava de um banho, exatamente como as pessoas. Num impulso, abriu um olho, esperou um pouco e depois o outro. Deu de cara com aquele grande urso de pelúcia, branco, com gravata e boina vermelhas. Ele estava lá há tanto tempo e é estranho que ela não o notasse como agora. Mesmo sonolenta, podia observá-lo, já meio amarelado, os olhos negros como se fossem dois botões de camisa, sentado na cadeira ao lado da cama. Tudo lhe veio à mente como um filme, num instante: a alegria daquele dia, há 10 anos. A festa de 15 anos e o grande embrulho de papel celofane rosa choque, seu grito de alegria ao abri-lo, a risada dos amigos, seu primeiro beijo em seu primeiro namorado na frente dos pais. Aquilo lhe fez bem. Sorriu. Olhou para cima e notou as mil estrelinhas colodas ao teto, um pedido feito aos pais quando estava na 3ª série, porque no escuro brilhavam como se fossem de verdade e isso parecia acalmá-la na hora de dormir. Delas também parecia ter se esquecido, tal qual a coleção de bonecas – trinta e sete, exatamente – perfeitamente acomodadas nas prateleiras das paredes. Tudo havia se tornado parte de um cenário a que ela tinha se acostumado e agora cada coisa parecia reassumir seu lugar, sua importância. Havia uma cumplicidade entre ela e cada objeto daquele quarto, como se sua estória pudesse ser contada através de todas aquelas coisas, numa seqüência cronológica até quando era apenas um bebê. Por isso recusara-se a mudar a decoração, como todas suas amigas fizeram tantos anos antes. Uma porta se abriu e com isso todos aqueles pensamentos se dissolveram. Era a mãe. Conhecia-lhe os passos, o som dos chinelos contra o tapete que cobria o chão do corredor. Também sabia o ruído de cada porta da casa. Aos poucos todos foram acordando. Ouviu ao longe a conversa da mãe e da tia na cozinha, o som de pratos, o arrastar das cadeiras. Sentiu o aroma de café. Havia uma animação, uma agitação incomum. E ela sabia o por que de tudo aquilo. A própria tia, irmã da mãe, havia dormido ali para ajudar nos preparativos. Laura sentou-se na cama e, apoiando as mãos no colchão, levantou-se. Olhou-se no espelho. Notou a magreza que sempre lhe poupara grandes sacrifícios na vida. Não sabia o que era uma dieta. Tudo lhe servia. Nisso tivera sorte.Reconhecia, no entanto, que não era propriamente bonita, mas que tinha um certo charme, uma graça natural, além daqueles longos cabelos castanhos claros, herdados da avó. Estava satisfeita. Passou as mãos pelo rosto e pelos cabelos e os ajeitou para trás. Calçou os chinelinhos e foi até a janela. Abriu somente uma parte, o suficiente para ver o dia cinzento e chuvoso. Sim, ela gostava de chuva, mas torcera para que não chovesse naquele dia, e agora isso. Não havia remédio. Abriu a porta e ouviu que todos tomavam café na copa: a mãe, a tia, o pai, os dois irmãos. Falavam do mesmo assunto, é claro. Ao passar pelo quarto de costura, viu o vestido pendurado num cabide, bem alto, o véu arrastando um pouco pelo chão. Era cópia exata do vestido usado pela mãe no dia de seu próprio casamento. O original havia sido desmanchado tempos depois e transformado num vestido de festa, e se perdera com os anos. Ela ficou ali algum tempo, pensando no significado de tudo aquilo. Olhou para trás, para seu quarto, viu o urso de pelúcia, as bonecas, parte de sua cama desfeita, a janela entreaberta, a chuva caindo como se fossem riscos delgados. Agora sabia de onde vinha aquela preguiça. Era sua despedida. Era o adeus àquele mundo que conhecia tão bem. Mas não havia tristeza. Virou-se novamente e desceu as escadas com pressa, sorrindo. Estava com fome e tinha muito o que fazer.
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
matar-se, morrer-se e viver
Ocorreu-me a morte. O desejo simples e direto de morrer. Deixar de viver, de existir, a partida, um espólio de coisas e pessoas para trás. Falo do suicida morto e do suicida vivo. Sim. Há uma diferença entre o desejo de morrer e o de matar-se. Matar-se é tão corajosamente covarde, enquanto querer morrer é duas vezes covarde. Há uma coragem grotesca e repulsiva para quem se mata. Lamenta-se o suicida, mas reconhece-se o ato de bravura de sorver o veneno, de puxar o gatilho ou de atirar-se no vazio. Nisso, sim, há coragem. A covardia, porém, está em bater a porta e deixar tudo para trás, sem resolução, a intempestividade, o ato sem volta. No desejo de morrer a covardia é dupla. Não há peito sequer para o ato final, e quer-se fugir da vida. Pede-se ao destino ou a quem seja uma saída, um desfecho. A ambos a piedade. Para os que desistem da vida e partem e para os que ficam. Para aqueles há, ao menos, a atitude tomada, embora trágica. Um último ato que põe a perder todos os outros, mas um ato. Para estes, não há nada: apenas uma vida não-vivida, sem projetos, sem sonhos, um empurrar dos dias. São tão mais covardes. Novamente a palavra: covardia. Pergunto-me se não será mil vezes mais condenável quem desistiu de viver e continua vivo, sem riscos. Há algo de repugnante no ato de de viver por viver, à espera de que algo ou alguém acabe com esse suplício, Deus, o diabo, o destino ou a degeneração celular. Quantas pessoas há que vivem sem rumo, sem esperança, que vivem em estado letárgico. Ocorreu-me a morte e com isso me dei conta de que viver para mim é essencial, que sinto-me vivo porque tenho mil sonhos e esperanças, porque espero, porque acredito, porque os minutos me são essenciais. E porque sou feliz.
não chego longe com estes sapatos apertados
Há outro alguém que habita em mim
Que sonha a liberdade
Que tem sede de vida
De verdade, toda ela
A que foi vivida
A que não foi vivida
A que está dita
A que foi ouvida
A que foi respondida
Mas no silêncio, em silêncio
Há mais coragem nele
Pobre outra criatura
Refém da covardia
Presa fácil da vida
Um mundo que diz não, não
Quando o desejo diz
Sim, sim, sim, sim
Que sonha a liberdade
Que tem sede de vida
De verdade, toda ela
A que foi vivida
A que não foi vivida
A que está dita
A que foi ouvida
A que foi respondida
Mas no silêncio, em silêncio
Há mais coragem nele
Pobre outra criatura
Refém da covardia
Presa fácil da vida
Um mundo que diz não, não
Quando o desejo diz
Sim, sim, sim, sim
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
de meu só tenho o coração
À vida peço pouca coisa
Não é muito, de verdade
Peço as músicas que me embalaram as horas
Os beijos que me molharam os lábios
As palavras que me emocionaram a alma
Os sorrisos que me tiraram do chão
As promessas da juventude
As lágrimas de alegria
Os dias ensolarados
Os momentos descuidados
O mergulho nas águas do mar
As cantigas de ninar
Os tempos de criança
Os tempos de adulto
E os tempos maduros
A memória dos dias vividos
E a felicidade incontida no peito
A ternura dos amigos
O amor de filho
O amor de pai
O amor de mãe
O amor
E toda forma de amor
Peço à vida pouca coisa
Somente o que meu coração pode carregar
O que posso levar a qualquer lugar
E que o tempo nunca, nunca, nunca vai apagar
Não é muito, de verdade
Peço as músicas que me embalaram as horas
Os beijos que me molharam os lábios
As palavras que me emocionaram a alma
Os sorrisos que me tiraram do chão
As promessas da juventude
As lágrimas de alegria
Os dias ensolarados
Os momentos descuidados
O mergulho nas águas do mar
As cantigas de ninar
Os tempos de criança
Os tempos de adulto
E os tempos maduros
A memória dos dias vividos
E a felicidade incontida no peito
A ternura dos amigos
O amor de filho
O amor de pai
O amor de mãe
O amor
E toda forma de amor
Peço à vida pouca coisa
Somente o que meu coração pode carregar
O que posso levar a qualquer lugar
E que o tempo nunca, nunca, nunca vai apagar
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
a falta que o ar me faz
Acordo sufocado, com pensamentos pulverizados em milhares de partículas. Não há uma idéia toda. São como pequenas luzes num quarto escuro, que acendem e apagam rapidamente, aqui e ali, e não se pode ver o conjunto. Finjo. Finjo que não percebo, numa seqüência de atos banais. Finjo-me banal também, mas é em vão. Há uma inquietude que me espreita o tempo todo e que me sussurra palavras, ações, que me desafia e instiga. Quero livrar-me disso tudo, quero um dia comum, quero-me comum. Quero desatar esses nós que me prendem a pensamentos que me prendem a coisas que me prendem a lugares que me prendem a pessoas que me prendem a desejos e que me prendem a mim mesmo. Quero-me vulgar, simples, quero-me dois mais dois são quatro. Quero acordar e não sufocar.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
saber já é meio caminho para esquecer
Não digo daquilo que não sei. Digo da verdade que escoa como a água, e que ninguém pode deter. Digo dos gestos, que derrogam as palavras. Nem tudo são palavras. Digo desse universo de mil coisas suspensas no ar. Digo do que percebo, e só percebo o que há. Não há o não-ser. Digo do que está no intervalo entre o concreto e o imaginário, mas que também é. Digo do momento antes do momento, que sinto vir. Digo do meus olhos que captam a luz e as imagens. Digo dessa realidade que insiste em negar a si mesma. Digo do que me atravessa o cérebro quando fecho os olhos e que continua lá, mesmo quando os abro novamente. Digo da minha não-loucura. Digo de tudo o que sempre esteve aqui e aí, contido, reprimido, sufocado pela necessidade de não-ser. Digo daquilo que é porque é, pela força intrínseca de ser. Digo somente do que sei, e só sei porque é, e não porque sei.
sábado, 29 de novembro de 2008
leia antes que eu apague
Preciso confessar que preciso ver. Sim, ver, por que não? Há quem dissesse de coisas mais importantes, como existir, ser, crescer, alcançar, melhorar, e...[pausa]... deixemos de lado essa lista, que ela é enorme e cansativa.Mas, de minhas prioridades, coroei o verbo ver. Sim, sim. Porque, se bem me lembro, para todas as coisas precisamos ver. Exceção aos cegos, mas eles não são o tema desta conversa. Volto ao verbo, agora conjugado: Eu vejo, tu vês, nós vemos. Ah, sim, ver é um ato bilateral, porque ver sem ser visto é como comida sem sal ou namoro sem beijo. Acho que os exemplos falam por si. Para comer ou beber basta-me eu. Para respirar, idem, idem. E para tomar banho? Não entro em detalhes de certos temas picantes, mas até para isso podemos agir sozinhos, e acho que fui bem compreendido. Ver, porém, esse ato de contemplar o mundo e reconhecer-se nele, de projetar-se para fora de si e de trazer o que está fora para dentro, não, esse não é um momento solitário, porque requer o cenário e os atores, ou só o cenário, ou só os atores, ou um ator que seja. Refiro-me, por certo, a tudo o que não sou eu. Portanto, ver é, de todos os sentidos, o mais dependente, o mais subserviente. E, sendo assim, o que mais vicia. Confesso que estou totalmente submisso a esse momento, o de ver. Tornou-se a pior das drogas, a mais perigosa, como se me faltasse o ar. Vejo, vejo, não vejo, não vejo, vejo, vejo, vejo, vejo, não vejo, não vejo. Também posso dizer: sou visto, sou visto, não sou visto, não sou visto, não, não, não, sim, sim, sim e assim por diante. Eis o emaranhado em que me meti. Há sinônimos: fria/roubada/furada. Qualquer dia revogo esta eleição, destituo o verbo, mando-o ao inferno e acaba-se o problema.
.....
Hoje ocorreu-me viver sem memórias
Nenhum passado
A morte solene de todas as estórias
Um eu sem mim
Um antídoto
A liberdade, enfim
Pura ironia
Com menos de um minuto
Dei-me conta dessa grande fantasia
A vida não se apaga de fato
Que para tal sorte de coisas
Até o diabo haveria de recusar-me um pacto
Nenhum passado
A morte solene de todas as estórias
Um eu sem mim
Um antídoto
A liberdade, enfim
Pura ironia
Com menos de um minuto
Dei-me conta dessa grande fantasia
A vida não se apaga de fato
Que para tal sorte de coisas
Até o diabo haveria de recusar-me um pacto
De Clarice Lispector o instigante"DÁ-ME TUA MÃO"
Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.
De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
carta a mim mesmo
Na vida quero todas as coisas
A alegria e a melancolia
Pois se choro minha tristeza com lágrimas
Recolho com gratidão tantas dádivas
Na vida quero os bons e os maus sentimentos
Para transformá-los na força de meus desejos
Na vida quero a angústia, as quedas e os erros
Para superá-los pela esperança e pelos acertos
Na vida não quero a felicidade pronta, acabada
Quero-a recompensa ao fim da estrada
Na vida não quero o egoísmo da solidão
Porque sem amor tudo perde a razão
E sendo esses meus únicos desejos
Peço a Deus , que se um dia
Bem longe deste dia
Eu me esquecer desta poesia
Seja ela, de alguma forma, sempre
Meu norte e meu guia
A alegria e a melancolia
Pois se choro minha tristeza com lágrimas
Recolho com gratidão tantas dádivas
Na vida quero os bons e os maus sentimentos
Para transformá-los na força de meus desejos
Na vida quero a angústia, as quedas e os erros
Para superá-los pela esperança e pelos acertos
Na vida não quero a felicidade pronta, acabada
Quero-a recompensa ao fim da estrada
Na vida não quero o egoísmo da solidão
Porque sem amor tudo perde a razão
E sendo esses meus únicos desejos
Peço a Deus , que se um dia
Bem longe deste dia
Eu me esquecer desta poesia
Seja ela, de alguma forma, sempre
Meu norte e meu guia
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
minhas duas vidas
Anoitece
Fecho os olhos
Do meu corpo não sou mais refém
Mergulho nesse outro universo
Esse outro mundo, tão-perto
Não tenho pés
Não há cansaço
Sou como um pássaro no espaço
Sou o ontem, o hoje
Sou meu futuro
Mas amanhece
Abro os olhos
Volto dessa doce morte
Não sei se nisso há sorte
Mas volto, ainda
Não é hora
Não é agora
Há mais dias de vida
Nessa jornada comprida
Fecho os olhos
Do meu corpo não sou mais refém
Mergulho nesse outro universo
Esse outro mundo, tão-perto
Não tenho pés
Não há cansaço
Sou como um pássaro no espaço
Sou o ontem, o hoje
Sou meu futuro
Mas amanhece
Abro os olhos
Volto dessa doce morte
Não sei se nisso há sorte
Mas volto, ainda
Não é hora
Não é agora
Há mais dias de vida
Nessa jornada comprida
terça-feira, 25 de novembro de 2008
de todas as coisas, a que ficou não dita
Se fosse um cão, te cheirava o corpo
Se fosse um gato, me esfregava todo
Se fosse uma cobra, me enrolava em ti
Se fosse um vampiro, te sugava o pescoço
Se fosse tua roupa, te acariciava a pele
Se fosse um pouco de água, passeava por tua boca
Se fosse água benta, te bendizia a alma
Se fosse um punhado de ar, invadia teus pulmões
Se fosse o mar, te convidava a entrar
Se fosse um esconderijo, te levava lá comigo
Se fosse um lençol macio, me deitava contigo
Se fosse uma manhã de sol, saía contigo à rua
Se fosse um dia de chuva, ficava contigo à toa
Se fosse a alegria, comigo te ririas
Se fosse o universo, te o dava de presente
Se fosse Deus, te faria um anjo
Se fosse todas as palavras, te escrevia um livro
Mas se fosse apenas três delas
Olhando-te, diria:
Eu te amo
Se fosse um gato, me esfregava todo
Se fosse uma cobra, me enrolava em ti
Se fosse um vampiro, te sugava o pescoço
Se fosse tua roupa, te acariciava a pele
Se fosse um pouco de água, passeava por tua boca
Se fosse água benta, te bendizia a alma
Se fosse um punhado de ar, invadia teus pulmões
Se fosse o mar, te convidava a entrar
Se fosse um esconderijo, te levava lá comigo
Se fosse um lençol macio, me deitava contigo
Se fosse uma manhã de sol, saía contigo à rua
Se fosse um dia de chuva, ficava contigo à toa
Se fosse a alegria, comigo te ririas
Se fosse o universo, te o dava de presente
Se fosse Deus, te faria um anjo
Se fosse todas as palavras, te escrevia um livro
Mas se fosse apenas três delas
Olhando-te, diria:
Eu te amo
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
riam-se
Zero, minha inspiração é zero
De minhas idéias
Não sai nada do que quero
Ai que desdita
Pego o lápis, rabisco a folha
Mas não acabo a escrita
Mas porque preciso terminar este poema
Senão arrumo um grande problema
Proponho outro tema:
Pegue um balde e um esfregão
Junte a isso muita água e sabão
E mãos à obra
Pois um bom banho nunca fez mal ao cão!
De minhas idéias
Não sai nada do que quero
Ai que desdita
Pego o lápis, rabisco a folha
Mas não acabo a escrita
Mas porque preciso terminar este poema
Senão arrumo um grande problema
Proponho outro tema:
Pegue um balde e um esfregão
Junte a isso muita água e sabão
E mãos à obra
Pois um bom banho nunca fez mal ao cão!
english troubadour
Pretending to feel what we feel not
Pretending to be what we are not
Life goes on til I dont know what
Maybe we're not as hard as a rock
Too wrapped up to feel the shock
That we're just wasting time'round the clock
Pretending to be what we are not
Life goes on til I dont know what
Maybe we're not as hard as a rock
Too wrapped up to feel the shock
That we're just wasting time'round the clock
um risinho já basta para salvá-la
Para um dia sem inspiração
Não te aflijas
Escreve qualquer coisa
Até mesmo uma oração
Porque os anjos irão ouvi-la
E ainda que tola, pobre ou sem rima
Não hão eles de ri-la
Não te aflijas
Escreve qualquer coisa
Até mesmo uma oração
Porque os anjos irão ouvi-la
E ainda que tola, pobre ou sem rima
Não hão eles de ri-la
domingo, 23 de novembro de 2008
paixão
Peço-te um dia
Um fragmento dele
Um momento de emoção
Teus olhos em meus olhos
Tua respiração na minha
Sem segredos
Um dia sem mentiras
Sem desculpas
Só loucuras
Peço-te esse momento
As coisas de verdade
Um rio de sensações
Teu corpo, meu corpo
Teu cheiro, meu cheiro
Mil beijos
Não um devaneio
Não tu
Não eu
Nós
Um fragmento dele
Um momento de emoção
Teus olhos em meus olhos
Tua respiração na minha
Sem segredos
Um dia sem mentiras
Sem desculpas
Só loucuras
Peço-te esse momento
As coisas de verdade
Um rio de sensações
Teu corpo, meu corpo
Teu cheiro, meu cheiro
Mil beijos
Não um devaneio
Não tu
Não eu
Nós
a terceira dimensão do nada
Um dia conto meu sonhos
Não, não aqueles enquanto durmo
Digo dos sonhos-vivos, os acordados
Aqueles que me vêm quando estou no trânsito
No trabalho, em casa, na farmácia
São sempre os mesmos, três ou quatro
Já se tornaram meus conhecidos, até converso com eles
Não, ainda não lhes dei nome, não quero tanta intimidade
Um sonho é um projeto (impossível, talvez, mas um projeto)
Não posso ficar íntimo, chamar pelo apelido
Desse jeito eles deixam de ser sonhos
E terei de inventar outros
E o caso é que estou muito satisfeito com estes
Já os conheço bem
Convivo com eles há décadas
Acho até que já os conhecia antes de nascer
Dessa forma, fico pensando se devo contar meus sonhos
Porque se meus sonhos são os sonhos de outros que também sonham
A quem eles irão de atender primeiro?
A mim ou aos outros?
Pronto, não conto nada
Que um pouco de egoísmo não faz mal a ninguém
E quanto aos meus sonhos, que se contentem com o anonimato
Que para isso são sonhos
Não, não aqueles enquanto durmo
Digo dos sonhos-vivos, os acordados
Aqueles que me vêm quando estou no trânsito
No trabalho, em casa, na farmácia
São sempre os mesmos, três ou quatro
Já se tornaram meus conhecidos, até converso com eles
Não, ainda não lhes dei nome, não quero tanta intimidade
Um sonho é um projeto (impossível, talvez, mas um projeto)
Não posso ficar íntimo, chamar pelo apelido
Desse jeito eles deixam de ser sonhos
E terei de inventar outros
E o caso é que estou muito satisfeito com estes
Já os conheço bem
Convivo com eles há décadas
Acho até que já os conhecia antes de nascer
Dessa forma, fico pensando se devo contar meus sonhos
Porque se meus sonhos são os sonhos de outros que também sonham
A quem eles irão de atender primeiro?
A mim ou aos outros?
Pronto, não conto nada
Que um pouco de egoísmo não faz mal a ninguém
E quanto aos meus sonhos, que se contentem com o anonimato
Que para isso são sonhos
vida, vida, vida....
Ai que a vida me escapa pelas mãos
Um punhado de areia
Para cada dia, um grão
Mas me escorregam todos
Vão ao chão
Desespero-me
Mas é em vão
Não há remédio
Não há solução
Não se prende a vida, não
Para isso não há permissão
Um punhado de areia
Para cada dia, um grão
Mas me escorregam todos
Vão ao chão
Desespero-me
Mas é em vão
Não há remédio
Não há solução
Não se prende a vida, não
Para isso não há permissão
sábado, 22 de novembro de 2008
no fim, nunca nada acaba
Se um dia eu me esquecer
É só porque guardei tudo bem escondido
Recolhi as memórias
Tranquei, pus num baú
Sumi com a chave
Mudei a casa, pintei as paredes
Vida nova, inteira
Se um dia eu não sonhar
É porque pedi aos anjos essa bondade
Porque preciso fechar os olhos e não pensar
Algumas horas ausente
Um vivo morto
Ou um corpo inerte
Mas que respira vida, inteira
Se um dia eu morrer
E hei de morrer
Destranco aquele baú
Pego tudo o que tem dentro
Ponho na bagagem
E vou lá pedir outra oportunidade
Uma outra vida, inteira
É só porque guardei tudo bem escondido
Recolhi as memórias
Tranquei, pus num baú
Sumi com a chave
Mudei a casa, pintei as paredes
Vida nova, inteira
Se um dia eu não sonhar
É porque pedi aos anjos essa bondade
Porque preciso fechar os olhos e não pensar
Algumas horas ausente
Um vivo morto
Ou um corpo inerte
Mas que respira vida, inteira
Se um dia eu morrer
E hei de morrer
Destranco aquele baú
Pego tudo o que tem dentro
Ponho na bagagem
E vou lá pedir outra oportunidade
Uma outra vida, inteira
questioning
self-images
heart and thoughts coming out on poetry
guess I need some exposure
recognition/sympathy/admiration/
or what?
heart and thoughts coming out on poetry
guess I need some exposure
recognition/sympathy/admiration/
or what?
jogral
Um poema não é como um problema
Que chega num telefonema
Alguém do outro lado, e que blasfema
Um poema é como uma paixão
Que nos invade sem permissão
E no fim, é pura emoção
Que chega num telefonema
Alguém do outro lado, e que blasfema
Um poema é como uma paixão
Que nos invade sem permissão
E no fim, é pura emoção
vai-te pra lugar nenhum
Há uma imensidão branca, alva
Onde habita minha alma
Mas nem por isso tenho calma
Há um lugar tão-bem escondido
Refúgio deste coração dorido
Onde busco um sentido
Há uma vida cheia de ilusão
Síntese de toda paixão
Mas nem por isso perdi a razão
Há uma vida toda, enorme
Na verdade tola, disforme
E é só isso com que estou conforme
Onde habita minha alma
Mas nem por isso tenho calma
Há um lugar tão-bem escondido
Refúgio deste coração dorido
Onde busco um sentido
Há uma vida cheia de ilusão
Síntese de toda paixão
Mas nem por isso perdi a razão
Há uma vida toda, enorme
Na verdade tola, disforme
E é só isso com que estou conforme
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
depois penso o que dizer aqui...
Ó alma, como sois transparente
Por ti passam os dias, tantos,
Nem te ressentes
Ó alma inocente
Que te torturas por quem te mente
Melhor que estejas assim, ausente
Ao menos esqueces, e nem sentes
Ó alma que procuras o sonho distante
Teu destino é mais que este instante
Então aguarda, confiante
Longe desta vida beligerante
Pois tua hora está lá
Não muito adiante
Por ti passam os dias, tantos,
Nem te ressentes
Ó alma inocente
Que te torturas por quem te mente
Melhor que estejas assim, ausente
Ao menos esqueces, e nem sentes
Ó alma que procuras o sonho distante
Teu destino é mais que este instante
Então aguarda, confiante
Longe desta vida beligerante
Pois tua hora está lá
Não muito adiante
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Fuga
Corro, sim
Nem disse que não corria
Corro, sim, todo dia
Corro dos sonhos
Corro de mim mesmo, como um louco
Corro, corro
E acho que a cada dia mais um pouco
Corro quando durmo
Num devaneio noturno
Corro e nem perco o fôlego
Corro, mas isso é mais um desvario
Sou um trôpego
Corro, corro, tanto é o meu pranto
Corro, corro
E para meu espanto
Cá estou, no entanto
Nem disse que não corria
Corro, sim, todo dia
Corro dos sonhos
Corro de mim mesmo, como um louco
Corro, corro
E acho que a cada dia mais um pouco
Corro quando durmo
Num devaneio noturno
Corro e nem perco o fôlego
Corro, mas isso é mais um desvario
Sou um trôpego
Corro, corro, tanto é o meu pranto
Corro, corro
E para meu espanto
Cá estou, no entanto
corre, corre, escreve logo, antes que isso te foge
Ah, poeta da parede lisa
E da página vazia
Confessa o que move teu dia
A busca incessante da rima
Ou verter as palavras
Da tua própria vida
Ah, poeta do teu único universo
A verdade é que achas-te submerso
Neste enredo sem sucesso
Não há um tom que te guie
Não há um santo que te ajude
Não há quem te tome pelas mãos
Só há os pensamentos sôfregos
Só há tais sentimentos atônitos
E já te vejo rabiscar estas palavras
Prontas, acabadas
E com elas vais voando
E mais nada
E da página vazia
Confessa o que move teu dia
A busca incessante da rima
Ou verter as palavras
Da tua própria vida
Ah, poeta do teu único universo
A verdade é que achas-te submerso
Neste enredo sem sucesso
Não há um tom que te guie
Não há um santo que te ajude
Não há quem te tome pelas mãos
Só há os pensamentos sôfregos
Só há tais sentimentos atônitos
E já te vejo rabiscar estas palavras
Prontas, acabadas
E com elas vais voando
E mais nada
biografando-me
nada nada nada nada nada nada
tudo tudo tudo tudo tudo tudo
um e outro, outro e um
sou tudo e nada sou
tudo tudo tudo tudo tudo tudo
um e outro, outro e um
sou tudo e nada sou
Fernando Pessoa é sempre inspiração pra este (pseudo) poetinha escondido aqui neste blog
"Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo!
Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme."
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo!
Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme."
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Quando era criança minha avó e minha mãe me diziam esta oração para dormir...
Jesusito de mi vida
Eres niño como yo
Por eso te quiero tanto
Que te doi mi corazón
Tomalo, tuyo és, mío no
Angel de mi guarda
Dulce companhia
No me desampares ni de noche ni de día
Por que si no me perdería
Con Dios me acuesto
Con Dios me levanto
La Virgem Maria
I el Espíritu Santo
Eres niño como yo
Por eso te quiero tanto
Que te doi mi corazón
Tomalo, tuyo és, mío no
Angel de mi guarda
Dulce companhia
No me desampares ni de noche ni de día
Por que si no me perdería
Con Dios me acuesto
Con Dios me levanto
La Virgem Maria
I el Espíritu Santo
este é o 'poema inquieto'.. leio, leio e nunca me satisfaço....
Vem, não tenhas medo
Chega-te aqui, vem sozinho
Despido de tudo o que tens escondido
Abandona essa roupa que te pesa tanto
Tem fé, olha em meus olhos
Fica aí um instante
E já saberás quem sou
Descobrirás a verdade
Vê?
Disse-te que não temeras
Sou tão-menos do que imaginastes
Sou apenas o que vai em meu peito
E mais todos estes pensamentos
É tão-pouco, bem sei
O que tenho para dar-te
Mas peço,
Aceita esta alma sem disfarce
Chega-te aqui, vem sozinho
Despido de tudo o que tens escondido
Abandona essa roupa que te pesa tanto
Tem fé, olha em meus olhos
Fica aí um instante
E já saberás quem sou
Descobrirás a verdade
Vê?
Disse-te que não temeras
Sou tão-menos do que imaginastes
Sou apenas o que vai em meu peito
E mais todos estes pensamentos
É tão-pouco, bem sei
O que tenho para dar-te
Mas peço,
Aceita esta alma sem disfarce
terça-feira, 18 de novembro de 2008
à noite
Aonde vão esses homens e mulheres?
Sigo-os com os olhos, corro
Tento alcançá-los
Nem mesmo vejo seus rostos
Andam com pressa e vão pelas sombras
Quem serão?
Sequer olham para trás, nem me percebem
Ouço os passos apressados,
Vão juntos em marcha
Perco as forças, desisto
Agora já vão longe
Mais um instante
E somem pelos vãos da cidade
Quem serão?
Sigo-os com os olhos, corro
Tento alcançá-los
Nem mesmo vejo seus rostos
Andam com pressa e vão pelas sombras
Quem serão?
Sequer olham para trás, nem me percebem
Ouço os passos apressados,
Vão juntos em marcha
Perco as forças, desisto
Agora já vão longe
Mais um instante
E somem pelos vãos da cidade
Quem serão?
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
o que falar sobre a paixão? Não, não, sobre o amor eterno?
ERA O BEIJO O QUE ELE QUERIA
AH, O BEIJO
O BEIJO E TODAS AS OUTRAS COISAS
O MOMENTO ANTERIOR
OS OLHOS SE ENCONTRANDO
OS CORAÇÕES BATENDO MAIS RÁPIDO
PASSOS OS APROXIMANDO
O ARREPIO CORTANDO A ESPINHA NUM SOBE, DESCE, SOBE, DESCE
MAIS PERTO, MAIS PERTO
OS OLHOS SE FECHANDO
OS CORPOS PARECENDO GIRAR
O GOSTO DA BOCA, DO BEIJO
MAS ERA MAIS O QUE ELE QUERIA
O ENCONTRO
NUM ABRAÇO QUE OS TORNASSE SOMENTE UM
NUM FRENESI QUE OS TIRASSE FORA DO TEMPO E DO ESPAÇO
QUE OS FIZESSE PERDER A NOÇÃO DA REALIDADE
E CRER QUE O MUNDO PODERIA ACABAR ALI, NAQUELE MOMENTO
PORQUE, AO MENOS UMA VEZ
POR UM SEGUNDO, OU UM ÁTIMO DELE
HAVERIA MUITO MAIS DO QUE A FELICIDADE ALI
HAVERIA O ÊXTASE DE QUEM VERDADEIRAMENTE AMOU!
AH, O BEIJO
O BEIJO E TODAS AS OUTRAS COISAS
O MOMENTO ANTERIOR
OS OLHOS SE ENCONTRANDO
OS CORAÇÕES BATENDO MAIS RÁPIDO
PASSOS OS APROXIMANDO
O ARREPIO CORTANDO A ESPINHA NUM SOBE, DESCE, SOBE, DESCE
MAIS PERTO, MAIS PERTO
OS OLHOS SE FECHANDO
OS CORPOS PARECENDO GIRAR
O GOSTO DA BOCA, DO BEIJO
MAS ERA MAIS O QUE ELE QUERIA
O ENCONTRO
NUM ABRAÇO QUE OS TORNASSE SOMENTE UM
NUM FRENESI QUE OS TIRASSE FORA DO TEMPO E DO ESPAÇO
QUE OS FIZESSE PERDER A NOÇÃO DA REALIDADE
E CRER QUE O MUNDO PODERIA ACABAR ALI, NAQUELE MOMENTO
PORQUE, AO MENOS UMA VEZ
POR UM SEGUNDO, OU UM ÁTIMO DELE
HAVERIA MUITO MAIS DO QUE A FELICIDADE ALI
HAVERIA O ÊXTASE DE QUEM VERDADEIRAMENTE AMOU!
A pray!
Time, time, time
Will it change a lie
Or just let the real thing die?
Time, time, time
Will it change who we are
And put everything behind, so far?
Time, time, time
I guess this could only be a disguise
For being afraid of the joy of life
Time, time, time
Why do I waste my time
Trying to figure out somebody else’s mind?
Time, time, time
I ask you plain and right:
Will I find peace for my heart?
Or at least get any less hard?
Time, time, time
Will this ever stop?
Because I’m too tired of this plot!
Will it change a lie
Or just let the real thing die?
Time, time, time
Will it change who we are
And put everything behind, so far?
Time, time, time
I guess this could only be a disguise
For being afraid of the joy of life
Time, time, time
Why do I waste my time
Trying to figure out somebody else’s mind?
Time, time, time
I ask you plain and right:
Will I find peace for my heart?
Or at least get any less hard?
Time, time, time
Will this ever stop?
Because I’m too tired of this plot!
domingo, 16 de novembro de 2008
Mim e ti
Tudo, a cada instante
A cada hora, todos os dias
Quando respiro
Quando acordo ou vou dormir
Cada pensamento, este momento e o anterior
Tudo em minha vida
Desde que nasci
E talvez até quando me levem para longe daqui
Tudo, meus gestos, o que quero e meus desejos
Tudo, tudo, porque apenas isso
E só isso faz sentido para eu viver
A cada hora, todos os dias
Quando respiro
Quando acordo ou vou dormir
Cada pensamento, este momento e o anterior
Tudo em minha vida
Desde que nasci
E talvez até quando me levem para longe daqui
Tudo, meus gestos, o que quero e meus desejos
Tudo, tudo, porque apenas isso
E só isso faz sentido para eu viver
sábado, 15 de novembro de 2008
Alma!
Vai, vai na onda da esperança
Leva o coração que anseia a liberdade
Atravessa o tempo, esquece o que passou
As lágrimas não são só daqueles que desesperam
Mas também dos que procuram a felicidade
Vai, vai, fecha os olhos e percebe o mundo ao teu redor
A alma parece sair desse corpo que a prende ao chão
Voa com teus pensamentos para longe de ti mesma
Tantas luzes surgem e te carregam com elas
Vai, vai, alma que não descansa
Vai, já te disseram
Tua missão é sempre buscar
Confia, confia, alma que pede
Pois tu hás de achar
Hás de chegar
E já não haverão lágrimas para secar
Leva o coração que anseia a liberdade
Atravessa o tempo, esquece o que passou
As lágrimas não são só daqueles que desesperam
Mas também dos que procuram a felicidade
Vai, vai, fecha os olhos e percebe o mundo ao teu redor
A alma parece sair desse corpo que a prende ao chão
Voa com teus pensamentos para longe de ti mesma
Tantas luzes surgem e te carregam com elas
Vai, vai, alma que não descansa
Vai, já te disseram
Tua missão é sempre buscar
Confia, confia, alma que pede
Pois tu hás de achar
Hás de chegar
E já não haverão lágrimas para secar
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Eu acredito em almas gêmeas, e parece que Emmanuel também..... no livro '50 Anos Depois', ditado a Chico Xavier, temos essa linda afirmação:
‘As almas gêmeas amam-se em curso de eternidade, confundindo-se na alternativa contingente dos elos do espírito. Aspiram a uma felicidade pura e imortal e só vivem felizes quando integradas na união eterna e indissolúvel’
CONTO 1
Ia a passos rápidos, como a vencer logo aqueles quarteirões até a casa.Nem sabia por que tinha pressa, ninguém o esperava .A esposa o havia deixado, e nem o cachorro tivera a bondade de lhe poupar. Então, era sempre assim, fim de tarde, saltava do ônibus naquela esquina, e fazia exatamente o mesmo trajeto, percorrido com ansiedade, olhar fixo à frente, quase hipnotizado pela idéia de girar a chave na porta, abri-la, e finalmente entrar. Talvez esperasse que ela tivesse voltado, ou que tivesse devolvido o cachorro, mas nada. Entrava na casa e o silêncio o torturava, depois de frustrá-lo; até mesmo uma carta dela poderia aliviá-lo, mas em 3 anos nada mais do que contas a pagar e cartões de natal enviados por bancos e lojas.Nem mais se incomodava em olhar o aparelho que registrava as chamadas; talvez tivesse medo de mais frustrações – mas a verdade é que sentia-se sozinho. A vizinhança dissera que ela fugira com um homem rico, mas ele nunca soube a verdade, ela ao menos havia deixado um bilhete, uma explicação, nada; poderia ter ligado para seu melhor (e único) amigo, mas nem isso. Naquele dia, quando chegou do trabalho, com uma ansiedade diferente, de felicidade, sua vida parecia acabar: a casa revirada, armários vazios, o cachorro não estava no quintal – pensou, primeiro, tratar-se de um assalto, claro, só poderia ser um assalto. Aos poucos foi-se dando conta da verdade: ela o havia deixado. Não percebera nenhum sinal, ela nunca tivera reclamado de nada, davam-se bem, nem mesmo brigavam. Vencido pela realidade, sentou-se no chão da cozinha, olhou ao redor, deitou-se e chorou até o dia seguinte. A partir de então sua vida resumia-se ao trabalho e à casa; não ia a qualquer outro lugar, senão para comprar o necessário. Não suportava aquele sorriso de deboche escondido no rosto de algumas pessoas, ou de pena no de outras. Não queria a compaixão de ninguém. Já lhe passara pela cabeça comprar outro cão, mas lhe parecia uma traição ao antigo animal, que ele mesmo escolhera – e pagara - , e ela, esgoisticamente, incluíra em sua bagagem. A verdade é que outro cão era como admitir que ela nunca mais voltaria, e ele, por mais que temesse isso, insistia em enganar a si mesmo. Talvez, se ela tivesse morrido, as coisas tivessem sido mais fáceis – ele seria o moço tão novo da rua (do bairro, do escritório, da cidade, enfim) que perdera a esposa, que lástima, que fatalidade, meu Deus; talvez as pessoas se apiedassem dele de outra forma, fazendo-lhe as vontades, convidando-o para ir aqui ou lá, trazendo-lhe mimos. Ele mesmo se sentiria orgulhoso de tantas atenções – enfim, a partida dela não seria tão dolorosa. Ao invés, ela lhe levara tudo, o amor-próprio, a dignidade, a alegria de viver e, por cima de tudo, o cão. Pensava em matá-la. Ah, sim, os sentimentos que nutria por ela eram tão fortes quanto ambíguos. Queria-a, desejava-a, ansiava em tê-la novamente em seus braços, mas a idéia de estrangulá-la com as próprias mãos lhe cruzava os pensamentos com uma morbidez que nunca sentira antes. Era incapaz de matar uma formiga, sua mãe dizia isso desde que era pequeno, e agora nutria esse pensamento todos os dias. Ela, a mãe, já havia morrido, graças a Deus, para lhe poupar a vergonha que sentia desde aquela sexta-feira, véspera de Carnaval. Ah, também isso ela (a traidora) havia levado embora: ele adorava os carnavais; não, não ia a clubes, não se fantasiava, mas gostava de sair à rua e acompanhar os blocos carnavalescos, cantando as marchinhas. Nem isso agora. Tinha 32 anos e nada lhe interessava, nem as moças que insistiam em se insinuar para ele. Elas lhe pareciam absolutamente iguais, e irritantemente gentis, de modo que as dispensava sem muita cerimônia . Outros três anos se passaram, e ele não lera um livro sequer, não tirara férias, não conversara com ninguém – senão o estritamente necessário – e agora já tinha 35 anos. As moças já não lhe davam qualquer atenção, não suspiravam, não faziam planos. Era um perdedor, isso sim, que ficasse só, diziam. Isso não lhe importava, nada lhe importava.
Às vezes, agora, já se esquecia dela, e até sorria quando se dava conta disso. Foi num dia assim, de outros pensamentos (quais?) que ele desceu do ônibus. Chovia muito e não trazia o guarda-chuva. Agora não andava apressado, corria, voava para molhar-se o menos possível. Odiava gripar-se. Quando chegou a casa, deteve-se no portão para procurar a chave, revirando os bolsos da calça; viu então, quase incrédulo, seus pés delicados metidos numa sandália que agora estava encharcada. Conhecia aqueles pés e poderia reconhecê-los em anos, séculos. Ela sentara-se de costas para a rua, na única cadeira da pequena varanda, e não o viu. Ele pensou em ir embora, mas lembrou-se de que teria de voltar e ela provavelmente ainda estaria lá. Também lhe ocorreu, em seguida, que havia desejado aquele momento – não, não daquele modo – por muito tempo, e não podia recuar. Agora estava completamente molhado, em pé, diante da casa. Atravessou o portão, mas a chuva produzia tamanho ruído que ela ainda não o notara. À medida que percorria o pequeno caminho pôde ver suas pernas, ainda úmidas. Ela trazia um vestido barato, bem diferente das roupas com que ele costumava presenteá-la. Quando alcançou a varanda, notou que ela apoiara o rosto nas próprias mãos, cabeça baixa, os cabelos escorridos, molhando-lhe a roupa. Nem lembrava aquela mulher de seis anos atrás. Havia algumas sacolas ao lado da cadeira; uma pequena bagagem. Ele entendeu tudo. Nesse momento ela o notou, e lentamente levantou o rosto. Não havia súplica em seu olhar; ou desespero. Parecia vazia, derrotada, sem forças. Ele já não queria matá-la, nem vingar-se, nem dizer-lhe o discurso que preparara por tantos anos. Tudo se desfez. Não disseram uma palavra. Ele se virou, pôs a chave na maçaneta e girou-a. A porta se abriu. Esperou. Ela se levantou, passou por ele e entrou. Ele depois, fechando a porta atrás de si. Seus olhos agora estavam marejados. A verdade é que ainda a amava.
(JIS)
Às vezes, agora, já se esquecia dela, e até sorria quando se dava conta disso. Foi num dia assim, de outros pensamentos (quais?) que ele desceu do ônibus. Chovia muito e não trazia o guarda-chuva. Agora não andava apressado, corria, voava para molhar-se o menos possível. Odiava gripar-se. Quando chegou a casa, deteve-se no portão para procurar a chave, revirando os bolsos da calça; viu então, quase incrédulo, seus pés delicados metidos numa sandália que agora estava encharcada. Conhecia aqueles pés e poderia reconhecê-los em anos, séculos. Ela sentara-se de costas para a rua, na única cadeira da pequena varanda, e não o viu. Ele pensou em ir embora, mas lembrou-se de que teria de voltar e ela provavelmente ainda estaria lá. Também lhe ocorreu, em seguida, que havia desejado aquele momento – não, não daquele modo – por muito tempo, e não podia recuar. Agora estava completamente molhado, em pé, diante da casa. Atravessou o portão, mas a chuva produzia tamanho ruído que ela ainda não o notara. À medida que percorria o pequeno caminho pôde ver suas pernas, ainda úmidas. Ela trazia um vestido barato, bem diferente das roupas com que ele costumava presenteá-la. Quando alcançou a varanda, notou que ela apoiara o rosto nas próprias mãos, cabeça baixa, os cabelos escorridos, molhando-lhe a roupa. Nem lembrava aquela mulher de seis anos atrás. Havia algumas sacolas ao lado da cadeira; uma pequena bagagem. Ele entendeu tudo. Nesse momento ela o notou, e lentamente levantou o rosto. Não havia súplica em seu olhar; ou desespero. Parecia vazia, derrotada, sem forças. Ele já não queria matá-la, nem vingar-se, nem dizer-lhe o discurso que preparara por tantos anos. Tudo se desfez. Não disseram uma palavra. Ele se virou, pôs a chave na maçaneta e girou-a. A porta se abriu. Esperou. Ela se levantou, passou por ele e entrou. Ele depois, fechando a porta atrás de si. Seus olhos agora estavam marejados. A verdade é que ainda a amava.
(JIS)
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