Ia a passos rápidos, como a vencer logo aqueles quarteirões até a casa.Nem sabia por que tinha pressa, ninguém o esperava .A esposa o havia deixado, e nem o cachorro tivera a bondade de lhe poupar. Então, era sempre assim, fim de tarde, saltava do ônibus naquela esquina, e fazia exatamente o mesmo trajeto, percorrido com ansiedade, olhar fixo à frente, quase hipnotizado pela idéia de girar a chave na porta, abri-la, e finalmente entrar. Talvez esperasse que ela tivesse voltado, ou que tivesse devolvido o cachorro, mas nada. Entrava na casa e o silêncio o torturava, depois de frustrá-lo; até mesmo uma carta dela poderia aliviá-lo, mas em 3 anos nada mais do que contas a pagar e cartões de natal enviados por bancos e lojas.Nem mais se incomodava em olhar o aparelho que registrava as chamadas; talvez tivesse medo de mais frustrações – mas a verdade é que sentia-se sozinho. A vizinhança dissera que ela fugira com um homem rico, mas ele nunca soube a verdade, ela ao menos havia deixado um bilhete, uma explicação, nada; poderia ter ligado para seu melhor (e único) amigo, mas nem isso. Naquele dia, quando chegou do trabalho, com uma ansiedade diferente, de felicidade, sua vida parecia acabar: a casa revirada, armários vazios, o cachorro não estava no quintal – pensou, primeiro, tratar-se de um assalto, claro, só poderia ser um assalto. Aos poucos foi-se dando conta da verdade: ela o havia deixado. Não percebera nenhum sinal, ela nunca tivera reclamado de nada, davam-se bem, nem mesmo brigavam. Vencido pela realidade, sentou-se no chão da cozinha, olhou ao redor, deitou-se e chorou até o dia seguinte. A partir de então sua vida resumia-se ao trabalho e à casa; não ia a qualquer outro lugar, senão para comprar o necessário. Não suportava aquele sorriso de deboche escondido no rosto de algumas pessoas, ou de pena no de outras. Não queria a compaixão de ninguém. Já lhe passara pela cabeça comprar outro cão, mas lhe parecia uma traição ao antigo animal, que ele mesmo escolhera – e pagara - , e ela, esgoisticamente, incluíra em sua bagagem. A verdade é que outro cão era como admitir que ela nunca mais voltaria, e ele, por mais que temesse isso, insistia em enganar a si mesmo. Talvez, se ela tivesse morrido, as coisas tivessem sido mais fáceis – ele seria o moço tão novo da rua (do bairro, do escritório, da cidade, enfim) que perdera a esposa, que lástima, que fatalidade, meu Deus; talvez as pessoas se apiedassem dele de outra forma, fazendo-lhe as vontades, convidando-o para ir aqui ou lá, trazendo-lhe mimos. Ele mesmo se sentiria orgulhoso de tantas atenções – enfim, a partida dela não seria tão dolorosa. Ao invés, ela lhe levara tudo, o amor-próprio, a dignidade, a alegria de viver e, por cima de tudo, o cão. Pensava em matá-la. Ah, sim, os sentimentos que nutria por ela eram tão fortes quanto ambíguos. Queria-a, desejava-a, ansiava em tê-la novamente em seus braços, mas a idéia de estrangulá-la com as próprias mãos lhe cruzava os pensamentos com uma morbidez que nunca sentira antes. Era incapaz de matar uma formiga, sua mãe dizia isso desde que era pequeno, e agora nutria esse pensamento todos os dias. Ela, a mãe, já havia morrido, graças a Deus, para lhe poupar a vergonha que sentia desde aquela sexta-feira, véspera de Carnaval. Ah, também isso ela (a traidora) havia levado embora: ele adorava os carnavais; não, não ia a clubes, não se fantasiava, mas gostava de sair à rua e acompanhar os blocos carnavalescos, cantando as marchinhas. Nem isso agora. Tinha 32 anos e nada lhe interessava, nem as moças que insistiam em se insinuar para ele. Elas lhe pareciam absolutamente iguais, e irritantemente gentis, de modo que as dispensava sem muita cerimônia . Outros três anos se passaram, e ele não lera um livro sequer, não tirara férias, não conversara com ninguém – senão o estritamente necessário – e agora já tinha 35 anos. As moças já não lhe davam qualquer atenção, não suspiravam, não faziam planos. Era um perdedor, isso sim, que ficasse só, diziam. Isso não lhe importava, nada lhe importava.
Às vezes, agora, já se esquecia dela, e até sorria quando se dava conta disso. Foi num dia assim, de outros pensamentos (quais?) que ele desceu do ônibus. Chovia muito e não trazia o guarda-chuva. Agora não andava apressado, corria, voava para molhar-se o menos possível. Odiava gripar-se. Quando chegou a casa, deteve-se no portão para procurar a chave, revirando os bolsos da calça; viu então, quase incrédulo, seus pés delicados metidos numa sandália que agora estava encharcada. Conhecia aqueles pés e poderia reconhecê-los em anos, séculos. Ela sentara-se de costas para a rua, na única cadeira da pequena varanda, e não o viu. Ele pensou em ir embora, mas lembrou-se de que teria de voltar e ela provavelmente ainda estaria lá. Também lhe ocorreu, em seguida, que havia desejado aquele momento – não, não daquele modo – por muito tempo, e não podia recuar. Agora estava completamente molhado, em pé, diante da casa. Atravessou o portão, mas a chuva produzia tamanho ruído que ela ainda não o notara. À medida que percorria o pequeno caminho pôde ver suas pernas, ainda úmidas. Ela trazia um vestido barato, bem diferente das roupas com que ele costumava presenteá-la. Quando alcançou a varanda, notou que ela apoiara o rosto nas próprias mãos, cabeça baixa, os cabelos escorridos, molhando-lhe a roupa. Nem lembrava aquela mulher de seis anos atrás. Havia algumas sacolas ao lado da cadeira; uma pequena bagagem. Ele entendeu tudo. Nesse momento ela o notou, e lentamente levantou o rosto. Não havia súplica em seu olhar; ou desespero. Parecia vazia, derrotada, sem forças. Ele já não queria matá-la, nem vingar-se, nem dizer-lhe o discurso que preparara por tantos anos. Tudo se desfez. Não disseram uma palavra. Ele se virou, pôs a chave na maçaneta e girou-a. A porta se abriu. Esperou. Ela se levantou, passou por ele e entrou. Ele depois, fechando a porta atrás de si. Seus olhos agora estavam marejados. A verdade é que ainda a amava.
(JIS)
terça-feira, 11 de novembro de 2008
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