sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Anatomia

eu não sou o cara
sou só um cara
que tem vergonha na cara
um cara que não tem duas caras
que enfrenta tudo cara a cara
o que falo, falo na cara
porque a verdade me é muito cara

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Tudo é possível

Não houve aviso. Não houve premeditação. Naquele dia sequer pensava em ti. Tinha me esquecido como esqueço sempre, depois de lembrar. Caminhava sob o sol, pés descalços no chão, poucas ilusões, somente calma. A certeza de que tudo estava bem, como deveria estar. Foi aí que te vi, não muito distante, não te movias. Eras todo sorriso, aquele sorriso. Vestias branco, assim como eu. Podíamos estar mortos, no paraíso. Quem sabe. Fui me chegando a ti devagar. O meu um sorriso tímido, que aumentou quando te pude ver melhor. Não dissemos nada, mas lembro dos meus olhos úmidos. Não sei se os teus. Não importa. Tomaste minha mão direita com a tua esquerda. Talvez nessa hora tenhamos levitado ou voado juntos. Tudo é possível. Tudo é absolutamente possível.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Mergulho

Ontem tive o mais intenso de todos os sonhos. Sonhei que nadava no profundo do mar, muito longe da tênue claridade da superfície. Não havia cores, não havia formas, apenas o cinza, soma de toda aquela água. Não me faltava o ar. Abandonei meu corpo naquela imensidão líquida, quase opaca, como uma criança, que se deixa levar nos braços da mãe. Fechei os olhos. Não sentia frio, apenas paz. A água passeava por cada parte de meu corpo, por meu cabelo, e preenchia todos meus poros. Estava nu. Não trazia roupas ou pensamentos. Uma inesperada liberdade. Entreguei-me ao infinito do oceano e fui sendo levado pela correnteza num turbilhão de sensações que nunca havia experimentado. Nem sei por quanto tempo fiquei assim e nem até onde meu sonho me levou. Mas acordei, o rosto banhado em lágrimas, uma felicidade tão grande que não cabia em mim. Foi quando me dei conta de que nunca, antes, estivera tão perto da presença de Deus.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

O resumo de todas as coisas

Sou amor

Sou paixão

Sou dúvida

Sou sonhos

Sou melancolia

Sou insônia

Sou lágrimas

Sou esperança

Sou inspiração

Sou desilusão

Sou confusão

Sou emoção

Sou homem

Sou menino

Sou amante

Sou parte

Sou fragmento

Sou pouco

Só um pouco

O pouco que sou

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A inocência é curva

A vida é uma linha reta. Longa, tão longa que os olhos não enxergam o começo ou o fim. Não se sabe de onde veio ou para onde vai. Talvez bastasse ficar junto dela, dar os passos certos, um após o outro, para chegar sabe-se lá onde, missão cumprida, um vencedor. Mas os sonhadores não andam em linhas retas. Eles sequer usam suas pernas ou pés. Eles acreditam ter asas e voam fazendo círculos no ar, sobem alto, até perto do sol, e depois mergulham no infinito, planando, planando. Os sonhadores abandonam o chão, afastam-se, e perdem-se em seus doces delírios. Os sonhadores correm riscos com efêmeras alegrias. Os sonhadores vivem inconsistentes esperanças. Os sonhadores, esses homens cujo espírito é infantil. Os sonhadores, que se reconhecem pelo riso e pelas lágrimas. Os sonhadores, donos de corações tão delicados. Eles não são vencedores, são apenas loucos sonhadores.