sábado, 31 de janeiro de 2009

O sorriso de Alice

Não acredite no sorriso. Por trás dele há um tormento. Um rio de lava incandescente que queima por dentro. Um vulcão prestes a eclodir. Uma inquietude que não tem nome. Caminhos não percorridos. Desejos não contados nessa longa trajetória sem rumo. Sonhos tão sonhados que se tornaram pesadelos. Não acredite no sorriso, ele é apenas a face mais amena de toda essa loucura.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Eco

O silêncio eu passo. Não me interessa. Quero os sons. O mundo em movimento: ônibus, carros, pessoas apressadas. Músicas, gritos, risadas, latidos. O ranger da porta. A chave que gira. A chuva. Os trovões. A vassoura que varre o chão. O ponteiro do relógio. O ruidoso êxtase dos amantes. O sussurro. A goteira. Sirenes. Elevadores que sobem e descem. Preciso da voz de todas as coisas, porque o silêncio é morte e estou vivo. Meu coração pulsa, minhas veias transportam sangue, meu pulmão enche e esvazia, e nisso não há silêncio. Meu corpo trabalha e minha alma não descansa. E meus pensamentos fazem barulho, muito barulho, porque são a síntese de minha existência, e minha existência são todos os sons de minhas lembranças.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Não peso mais do que pesa o ar

Não sou este corpo.

Não sou estes olhos.

Não sou estes braços.

Não sou minha boca.

Não sou minhas pernas.

Não sou estes cabelos castanhos.

Nem estes cabelos brancos.

Não sou minha pele.

Não sou meus músculos.

Não sou meus pêlos ou meus dedos.

Não sou minhas mãos nem meus ossos.

Não sou meu fígado.

Não sou meu pulmão.

Não sou nada disso.

Sou minha alma e meu coração.

Sou apenas emoção.

Sou amor.

É tudo o que sou.

Meu coração

Meu coração é malandro. Meu coração tem muitos donos. Ele é do mundo, de qualquer lugar. Ele mora nas ruas, nas esquinas da cidade, por onde eu andar. Ele está no olhar das pessoas, todas as que eu posso amar. Meu coração é meio vira-lata. Aceita só um sorriso, qualquer gentileza, e já se deixa levar. Meu coração é sossego e paz, é porto seguro pra quem quer descansar. Meu coração não tem porta. Meu coração não tem tranca nem chave. Fica quem gostar. Ele é feito de aço, e mesmo que pisem, e mesmo que torçam, insiste em continuar. Meu coração é enorme, não tem limites, não tem regras. Só não serve pra quem não quer entrar.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

O homem se mede pela ternura

Eu tenho medo. Tenho medo das palavras e do resultado delas. Tenho medo do confronto comigo mesmo, porque desconheço a auto-indulgência. Porque não dissimulo. Porque minha alma é áspera e não me perdoa. Tenho medo de muitas coisas e é difícil falar. Tenho medo às vezes de andar de bicicleta, porque não sei de onde vem um frio na barriga, como se nesse dia fosse morrer. Tenho medo de perder a inspiração e nunca mais escrever. Vou contando o tempo em que estou vazio, em que nada me ocorre, e isso me assusta. Tenho medo de me olhar no espelho, porque muitas vezes não sei quem é essa pessoa que me acompanha todos os dias. Tenho medo dos labirintos onde me meto, porque Deus e o universo me fazem perder a lógica, e é difícil sossegar meu coração quando abro os olhos, porque não sei por quanto tempo estarei aqui. Tenho medo de que minhas crenças todas sejam apenas ilusão. Tenho medo de dormir, porque em sonho não sou nada do que sou. Sou melhor e sou pior, mas não sou quem sou. Tenho medo do tempo, porque ele é implacável e destrói devagar cada coisa que conheço, inclusive a mim mesmo. Tenho medo de não ter mais meus pais. Tenho medo de não ser mais filho. Tenho medo de nunca ser pai. Tenho medo de não deixar atrás de mim um rastro de amor e doçura. Tenho medo da solidão, mas não de qualquer solidão. O que me assusta é a regra inexorável da vida, a vida e seus tentáculos, que levam consigo, aos poucos, a quem amo. Tenho medo de ser o último a partir. Tenho medo do fim da estrada, e que ele chegue antes do fim dos meus planos. Tenho medo de minha mediocridade. Tenho medo de nunca mais ver o sorriso e de não sentir o beijo. Tenho medo de não ter aquele abraço. Tenho medo de viver de sonhos. Mas tenho medo de perder meus sonhos. Tenho medo de uma vida sem legados. Tenho medo da partida e do que vou encontrar. E tenho medo de nada encontrar. E embora tantos medos, e Deus sabe que há muitos outros, nenhum deles engessou minha alma ou me transformou no maior de todos os covardes. Porque de todas as coisas, a mais difícil delas não paralisou meu coração: não tenho medo de amar.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Talvez

Quando era bem tarde costumava sair, sozinho. Não nas noites quentes. Fazia-o somente quando estava frio e as ruas desertas, e quando as pessoas pareciam ter se refugiado em suas casas. Por alguma razão gostava do vento gelado. Por alguma razão o silêncio e a escuridão lhe davam a coragem que faltava em tantas outras coisas de sua vida. Um paradoxo. Mas é como se o mundo, apenas nessas noites, lhe pertencesse. Cada rua, cada árvore, os muros, a fachada das casas, os carros estacionados. Tudo era seu sem qualquer distância, sem intermediários. Ele se comunicava com tudo aquilo, e aquelas coisas lhe diziam coisas. Uma cumplicidade insuspeita, alucinada, mas incrivelmente real. No verão havia uma agitação que tornava tudo menos seu. Mas agora o outono havia chegado. Anoitecia e via no escuro de seu quarto os galhos da árvore plantada na calçada balançando de tal forma que formava na parede aquelas imagens assustadoras e lindas. Ouvia o zunido do vento passando por todas as frestas da casa. Não havia um sentido de solidão, mas apenas o impulso de ir à rua, de percorrer aqueles caminhos, de ver o que tinha de ser visto. A cidade o abraçava. Mas também lhe ocorria que talvez alguém o seguisse nessas noites, ou que, talvez, talvez, alguém experimentasse daquela mesma inquietude, daquela mesma loucura e percorresse aqueles mesmos caminhos, procurando as mesmas respostas das mesmas perguntas que nunca tinham sido feitas. Talvez, talvez.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O teatro

Era um hipócrita de si mesmo. Um fingido, um ator, um personagem de sua própria existência. Era um palhaço de circo. Carregava no rosto uma maquiagem invisível, colorida, que lhe aumentava os olhos e lhe punha um sorriso largo, cômico. Mas que não existia. Uma metáfora. Era qualquer coisa, menos o que parecia ser. Era tão pouco, tão irrelevante. Por isso se escondia por trás daqueles disfarces. Julgava-se satisfeito, tão pateticamente satisfeito. Mas às vezes, com um tanto de água e outro de coragem, enxergava sua verdadeira essência. E quase nada sobrava daquela triste ilusão. Era apenas um pequeno homem, ou um homem pequeno, infantil. Era como uma criança, perdida numa grande cidade. Ele estava só e tinha medo, muito medo.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Vermelho

Aquelas não eram flores quaisquer. Eram rosas vermelhas, vivas, de uma cor intensa e escura, uniforme, única, como o sangue que lhe corria pelas veias. Vermelhas como seu coração, irrigado desse mesmo líquido grosso, viscoso, que lhe dava a vida. Bombeado para todo seu corpo, até para aquelas pequenas artérias em seus globos oculares. Os mesmos olhos que captavam a beleza daquelas flores e lhes reconhecia a cor, a coincidência da natureza. Os mesmos olhos que um dia se fechariam para a vida, como as pétalas daquelas flores um dia cairiam ao chão. E tudo se transformaria em outras coisas. Como todas as coisas se tornam outras coisas e estas em outras num ciclo interminável, infinito, sem começo, sem fim, sem limite, sem tempo, tão absurdamente louco e tão absolutamente necessário.