segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Laura

Era uma manhã arrastada, sem pressa. A pouca luminosidade que penetrava pelas frestas da janela, em razão da chuva fina que insista em cair sobre o telhado, ajudava na preguiça. Mas a verdade é que Laura, se pudesse, ficaria na cama para sempre. Para sempre era um exagero dizer, mas naquela manhã de sábado é assim que ela se sentia. Estava acordada há um bom tempo, mas não havia aberto os olhos. Divertia-se com o ruído da água sobre as telhas, que depois passava pela calha e por fim terminava naquele gotejamento duro, espesso, que caía rente à janela. Sempre gostara dos dias de chuva. A água e seus mil sons em contato com as superfícies duras. Talvez por isso ainda continuasse ali, sem abrir os olhos, porque no instante que o fizesse tudo desapareceria, e de alguma forma ela ainda precisava daquilo, do ruído fino da água dissolvendo a poeira, limpando todas as coisas. Às vezes julgava-se louca por ter esses pensamentos, mas era inevitável imaginar que o mundo precisava de um banho, exatamente como as pessoas. Num impulso, abriu um olho, esperou um pouco e depois o outro. Deu de cara com aquele grande urso de pelúcia, branco, com gravata e boina vermelhas. Ele estava lá há tanto tempo e é estranho que ela não o notasse como agora. Mesmo sonolenta, podia observá-lo, já meio amarelado, os olhos negros como se fossem dois botões de camisa, sentado na cadeira ao lado da cama. Tudo lhe veio à mente como um filme, num instante: a alegria daquele dia, há 10 anos. A festa de 15 anos e o grande embrulho de papel celofane rosa choque, seu grito de alegria ao abri-lo, a risada dos amigos, seu primeiro beijo em seu primeiro namorado na frente dos pais. Aquilo lhe fez bem. Sorriu. Olhou para cima e notou as mil estrelinhas colodas ao teto, um pedido feito aos pais quando estava na 3ª série, porque no escuro brilhavam como se fossem de verdade e isso parecia acalmá-la na hora de dormir. Delas também parecia ter se esquecido, tal qual a coleção de bonecas – trinta e sete, exatamente – perfeitamente acomodadas nas prateleiras das paredes. Tudo havia se tornado parte de um cenário a que ela tinha se acostumado e agora cada coisa parecia reassumir seu lugar, sua importância. Havia uma cumplicidade entre ela e cada objeto daquele quarto, como se sua estória pudesse ser contada através de todas aquelas coisas, numa seqüência cronológica até quando era apenas um bebê. Por isso recusara-se a mudar a decoração, como todas suas amigas fizeram tantos anos antes. Uma porta se abriu e com isso todos aqueles pensamentos se dissolveram. Era a mãe. Conhecia-lhe os passos, o som dos chinelos contra o tapete que cobria o chão do corredor. Também sabia o ruído de cada porta da casa. Aos poucos todos foram acordando. Ouviu ao longe a conversa da mãe e da tia na cozinha, o som de pratos, o arrastar das cadeiras. Sentiu o aroma de café. Havia uma animação, uma agitação incomum. E ela sabia o por que de tudo aquilo. A própria tia, irmã da mãe, havia dormido ali para ajudar nos preparativos. Laura sentou-se na cama e, apoiando as mãos no colchão, levantou-se. Olhou-se no espelho. Notou a magreza que sempre lhe poupara grandes sacrifícios na vida. Não sabia o que era uma dieta. Tudo lhe servia. Nisso tivera sorte.Reconhecia, no entanto, que não era propriamente bonita, mas que tinha um certo charme, uma graça natural, além daqueles longos cabelos castanhos claros, herdados da avó. Estava satisfeita. Passou as mãos pelo rosto e pelos cabelos e os ajeitou para trás. Calçou os chinelinhos e foi até a janela. Abriu somente uma parte, o suficiente para ver o dia cinzento e chuvoso. Sim, ela gostava de chuva, mas torcera para que não chovesse naquele dia, e agora isso. Não havia remédio. Abriu a porta e ouviu que todos tomavam café na copa: a mãe, a tia, o pai, os dois irmãos. Falavam do mesmo assunto, é claro. Ao passar pelo quarto de costura, viu o vestido pendurado num cabide, bem alto, o véu arrastando um pouco pelo chão. Era cópia exata do vestido usado pela mãe no dia de seu próprio casamento. O original havia sido desmanchado tempos depois e transformado num vestido de festa, e se perdera com os anos. Ela ficou ali algum tempo, pensando no significado de tudo aquilo. Olhou para trás, para seu quarto, viu o urso de pelúcia, as bonecas, parte de sua cama desfeita, a janela entreaberta, a chuva caindo como se fossem riscos delgados. Agora sabia de onde vinha aquela preguiça. Era sua despedida. Era o adeus àquele mundo que conhecia tão bem. Mas não havia tristeza. Virou-se novamente e desceu as escadas com pressa, sorrindo. Estava com fome e tinha muito o que fazer.

Nenhum comentário: