terça-feira, 9 de dezembro de 2008

matar-se, morrer-se e viver

Ocorreu-me a morte. O desejo simples e direto de morrer. Deixar de viver, de existir, a partida, um espólio de coisas e pessoas para trás. Falo do suicida morto e do suicida vivo. Sim. Há uma diferença entre o desejo de morrer e o de matar-se. Matar-se é tão corajosamente covarde, enquanto querer morrer é duas vezes covarde. Há uma coragem grotesca e repulsiva para quem se mata. Lamenta-se o suicida, mas reconhece-se o ato de bravura de sorver o veneno, de puxar o gatilho ou de atirar-se no vazio. Nisso, sim, há coragem. A covardia, porém, está em bater a porta e deixar tudo para trás, sem resolução, a intempestividade, o ato sem volta. No desejo de morrer a covardia é dupla. Não há peito sequer para o ato final, e quer-se fugir da vida. Pede-se ao destino ou a quem seja uma saída, um desfecho. A ambos a piedade. Para os que desistem da vida e partem e para os que ficam. Para aqueles há, ao menos, a atitude tomada, embora trágica. Um último ato que põe a perder todos os outros, mas um ato. Para estes, não há nada: apenas uma vida não-vivida, sem projetos, sem sonhos, um empurrar dos dias. São tão mais covardes. Novamente a palavra: covardia. Pergunto-me se não será mil vezes mais condenável quem desistiu de viver e continua vivo, sem riscos. Há algo de repugnante no ato de de viver por viver, à espera de que algo ou alguém acabe com esse suplício, Deus, o diabo, o destino ou a degeneração celular. Quantas pessoas há que vivem sem rumo, sem esperança, que vivem em estado letárgico. Ocorreu-me a morte e com isso me dei conta de que viver para mim é essencial, que sinto-me vivo porque tenho mil sonhos e esperanças, porque espero, porque acredito, porque os minutos me são essenciais. E porque sou feliz.

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