sábado, 24 de abril de 2010
Nossos olhos
Eu te sinto por todos os lados. Teus olhos e tuas pernas, que se movem e te levam pra longe de mim. Abro e fecho os olhos, e lá estás tu, olhos, pernas. Então, entrego-me aos sonhos, e neles te vejo outra vez, agora mais inteiro, real, mais tu mesmo, um tu meu. Mais eu mesmo. Um eu teu. Eu digo e tu dizes, teus olhos estão mais perto, vejo-te melhor, não há pressa. Tua voz não é trêmula, eu não tenho medo, o mundo não existe a não ser porque estamos nele. Mas recorda, há um dragão que se move entre nós. Feio, impiedoso, cheio de mágoa. Um dragão meu e teu, nosso, uma cria estranha, acariciada, cuidada, alimentada aos montes para não morrer. E eu não posso lidar com ele sozinho, porque tentei matá-lo algumas vezes, já nessa revolta que nasceu dentro de mim, mas não dou conta sem tua ajuda, porque eu o derrubo e tu o levantas, eu lhe dou o veneno e tu lhe dás o antídoto. E não adianta colocá-lo para fora, porque ele escuta teus apelos, e os meus que eu tento abafar, e derruba a porta mais furioso e se põe entre mim e tu. Ah, ajuda-me a aniquilar esse monstro, ajuda-me a descarregá-lo bem longe de nós, num lugar qualquer, onde ele não possa cuspir o fogo que mata tudo ao redor. Porque sem ele só restamos eu e tu, e já não é muito? Quem precisa desse tolo? E antes que me esqueça, perdoa-me por tudo, perdoa-me o que bem sabes que te peço que me perdoes, porque fiz o que fiz porque não sabia lidar com esse monstro, que irracional que é, como toda besta-fera, foi maior do que meu coração, foi maior do que minha razão. Perdoa e olha-me nos olhos, queixo erguido, o queixo que o dragão insiste em baixar para continuar pondo-se entre nós. Olha-me, que o tempo urge e amanhã não há. E agora, que estes meus olhos me pesam e tenho sono, quem sabe não te encontro longe dele e posso dizer-te isto tudo antes que leias isto tudo. Dorme bem tu também.
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