quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

por agora, peço a bondade de Deus

Os dias de tormenta

A malícia das criaturas

A falta de verdade

A mentira

Peço a Deus a força necessária

A paz, o equilíbrio, a confiança

Não é assim que se reafirma a fé?

Ou as coisas somente vão bem quando tudo está bem?

A vida não é feita de mil alfinetadas?

Mil agulhadas que nos ferem?

Mas serão elas mais fortes que os bálsamos que caem dos céus?

Que as alegrias recolhidas em outros instantes?

Fecho os olhos e afasto o que não me pertence

O que não sou

O que não faz parte de mim

O mal só me atinge se em meu coração houver lugar para ele

Preciso da força para perdoar, para entender

Aí está a sabedoria, aí está a verdadeira evolução

Aí a lição de amor que preciso aprender, ainda

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Laura

Era uma manhã arrastada, sem pressa. A pouca luminosidade que penetrava pelas frestas da janela, em razão da chuva fina que insista em cair sobre o telhado, ajudava na preguiça. Mas a verdade é que Laura, se pudesse, ficaria na cama para sempre. Para sempre era um exagero dizer, mas naquela manhã de sábado é assim que ela se sentia. Estava acordada há um bom tempo, mas não havia aberto os olhos. Divertia-se com o ruído da água sobre as telhas, que depois passava pela calha e por fim terminava naquele gotejamento duro, espesso, que caía rente à janela. Sempre gostara dos dias de chuva. A água e seus mil sons em contato com as superfícies duras. Talvez por isso ainda continuasse ali, sem abrir os olhos, porque no instante que o fizesse tudo desapareceria, e de alguma forma ela ainda precisava daquilo, do ruído fino da água dissolvendo a poeira, limpando todas as coisas. Às vezes julgava-se louca por ter esses pensamentos, mas era inevitável imaginar que o mundo precisava de um banho, exatamente como as pessoas. Num impulso, abriu um olho, esperou um pouco e depois o outro. Deu de cara com aquele grande urso de pelúcia, branco, com gravata e boina vermelhas. Ele estava lá há tanto tempo e é estranho que ela não o notasse como agora. Mesmo sonolenta, podia observá-lo, já meio amarelado, os olhos negros como se fossem dois botões de camisa, sentado na cadeira ao lado da cama. Tudo lhe veio à mente como um filme, num instante: a alegria daquele dia, há 10 anos. A festa de 15 anos e o grande embrulho de papel celofane rosa choque, seu grito de alegria ao abri-lo, a risada dos amigos, seu primeiro beijo em seu primeiro namorado na frente dos pais. Aquilo lhe fez bem. Sorriu. Olhou para cima e notou as mil estrelinhas colodas ao teto, um pedido feito aos pais quando estava na 3ª série, porque no escuro brilhavam como se fossem de verdade e isso parecia acalmá-la na hora de dormir. Delas também parecia ter se esquecido, tal qual a coleção de bonecas – trinta e sete, exatamente – perfeitamente acomodadas nas prateleiras das paredes. Tudo havia se tornado parte de um cenário a que ela tinha se acostumado e agora cada coisa parecia reassumir seu lugar, sua importância. Havia uma cumplicidade entre ela e cada objeto daquele quarto, como se sua estória pudesse ser contada através de todas aquelas coisas, numa seqüência cronológica até quando era apenas um bebê. Por isso recusara-se a mudar a decoração, como todas suas amigas fizeram tantos anos antes. Uma porta se abriu e com isso todos aqueles pensamentos se dissolveram. Era a mãe. Conhecia-lhe os passos, o som dos chinelos contra o tapete que cobria o chão do corredor. Também sabia o ruído de cada porta da casa. Aos poucos todos foram acordando. Ouviu ao longe a conversa da mãe e da tia na cozinha, o som de pratos, o arrastar das cadeiras. Sentiu o aroma de café. Havia uma animação, uma agitação incomum. E ela sabia o por que de tudo aquilo. A própria tia, irmã da mãe, havia dormido ali para ajudar nos preparativos. Laura sentou-se na cama e, apoiando as mãos no colchão, levantou-se. Olhou-se no espelho. Notou a magreza que sempre lhe poupara grandes sacrifícios na vida. Não sabia o que era uma dieta. Tudo lhe servia. Nisso tivera sorte.Reconhecia, no entanto, que não era propriamente bonita, mas que tinha um certo charme, uma graça natural, além daqueles longos cabelos castanhos claros, herdados da avó. Estava satisfeita. Passou as mãos pelo rosto e pelos cabelos e os ajeitou para trás. Calçou os chinelinhos e foi até a janela. Abriu somente uma parte, o suficiente para ver o dia cinzento e chuvoso. Sim, ela gostava de chuva, mas torcera para que não chovesse naquele dia, e agora isso. Não havia remédio. Abriu a porta e ouviu que todos tomavam café na copa: a mãe, a tia, o pai, os dois irmãos. Falavam do mesmo assunto, é claro. Ao passar pelo quarto de costura, viu o vestido pendurado num cabide, bem alto, o véu arrastando um pouco pelo chão. Era cópia exata do vestido usado pela mãe no dia de seu próprio casamento. O original havia sido desmanchado tempos depois e transformado num vestido de festa, e se perdera com os anos. Ela ficou ali algum tempo, pensando no significado de tudo aquilo. Olhou para trás, para seu quarto, viu o urso de pelúcia, as bonecas, parte de sua cama desfeita, a janela entreaberta, a chuva caindo como se fossem riscos delgados. Agora sabia de onde vinha aquela preguiça. Era sua despedida. Era o adeus àquele mundo que conhecia tão bem. Mas não havia tristeza. Virou-se novamente e desceu as escadas com pressa, sorrindo. Estava com fome e tinha muito o que fazer.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

matar-se, morrer-se e viver

Ocorreu-me a morte. O desejo simples e direto de morrer. Deixar de viver, de existir, a partida, um espólio de coisas e pessoas para trás. Falo do suicida morto e do suicida vivo. Sim. Há uma diferença entre o desejo de morrer e o de matar-se. Matar-se é tão corajosamente covarde, enquanto querer morrer é duas vezes covarde. Há uma coragem grotesca e repulsiva para quem se mata. Lamenta-se o suicida, mas reconhece-se o ato de bravura de sorver o veneno, de puxar o gatilho ou de atirar-se no vazio. Nisso, sim, há coragem. A covardia, porém, está em bater a porta e deixar tudo para trás, sem resolução, a intempestividade, o ato sem volta. No desejo de morrer a covardia é dupla. Não há peito sequer para o ato final, e quer-se fugir da vida. Pede-se ao destino ou a quem seja uma saída, um desfecho. A ambos a piedade. Para os que desistem da vida e partem e para os que ficam. Para aqueles há, ao menos, a atitude tomada, embora trágica. Um último ato que põe a perder todos os outros, mas um ato. Para estes, não há nada: apenas uma vida não-vivida, sem projetos, sem sonhos, um empurrar dos dias. São tão mais covardes. Novamente a palavra: covardia. Pergunto-me se não será mil vezes mais condenável quem desistiu de viver e continua vivo, sem riscos. Há algo de repugnante no ato de de viver por viver, à espera de que algo ou alguém acabe com esse suplício, Deus, o diabo, o destino ou a degeneração celular. Quantas pessoas há que vivem sem rumo, sem esperança, que vivem em estado letárgico. Ocorreu-me a morte e com isso me dei conta de que viver para mim é essencial, que sinto-me vivo porque tenho mil sonhos e esperanças, porque espero, porque acredito, porque os minutos me são essenciais. E porque sou feliz.

não chego longe com estes sapatos apertados

Há outro alguém que habita em mim

Que sonha a liberdade

Que tem sede de vida

De verdade, toda ela

A que foi vivida

A que não foi vivida

A que está dita

A que foi ouvida

A que foi respondida

Mas no silêncio, em silêncio

Há mais coragem nele

Pobre outra criatura

Refém da covardia

Presa fácil da vida

Um mundo que diz não, não

Quando o desejo diz

Sim, sim, sim, sim

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

de meu só tenho o coração

À vida peço pouca coisa

Não é muito, de verdade

Peço as músicas que me embalaram as horas

Os beijos que me molharam os lábios

As palavras que me emocionaram a alma

Os sorrisos que me tiraram do chão

As promessas da juventude

As lágrimas de alegria

Os dias ensolarados

Os momentos descuidados

O mergulho nas águas do mar

As cantigas de ninar

Os tempos de criança

Os tempos de adulto

E os tempos maduros

A memória dos dias vividos

E a felicidade incontida no peito

A ternura dos amigos

O amor de filho

O amor de pai

O amor de mãe

O amor

E toda forma de amor

Peço à vida pouca coisa

Somente o que meu coração pode carregar

O que posso levar a qualquer lugar

E que o tempo nunca, nunca, nunca vai apagar

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

a falta que o ar me faz

Acordo sufocado, com pensamentos pulverizados em milhares de partículas. Não há uma idéia toda. São como pequenas luzes num quarto escuro, que acendem e apagam rapidamente, aqui e ali, e não se pode ver o conjunto. Finjo. Finjo que não percebo, numa seqüência de atos banais. Finjo-me banal também, mas é em vão. Há uma inquietude que me espreita o tempo todo e que me sussurra palavras, ações, que me desafia e instiga. Quero livrar-me disso tudo, quero um dia comum, quero-me comum. Quero desatar esses nós que me prendem a pensamentos que me prendem a coisas que me prendem a lugares que me prendem a pessoas que me prendem a desejos e que me prendem a mim mesmo. Quero-me vulgar, simples, quero-me dois mais dois são quatro. Quero acordar e não sufocar.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

saber já é meio caminho para esquecer

Não digo daquilo que não sei. Digo da verdade que escoa como a água, e que ninguém pode deter. Digo dos gestos, que derrogam as palavras. Nem tudo são palavras. Digo desse universo de mil coisas suspensas no ar. Digo do que percebo, e só percebo o que há. Não há o não-ser. Digo do que está no intervalo entre o concreto e o imaginário, mas que também é. Digo do momento antes do momento, que sinto vir. Digo do meus olhos que captam a luz e as imagens. Digo dessa realidade que insiste em negar a si mesma. Digo do que me atravessa o cérebro quando fecho os olhos e que continua lá, mesmo quando os abro novamente. Digo da minha não-loucura. Digo de tudo o que sempre esteve aqui e aí, contido, reprimido, sufocado pela necessidade de não-ser. Digo daquilo que é porque é, pela força intrínseca de ser. Digo somente do que sei, e só sei porque é, e não porque sei.