quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Talvez
Quando era bem tarde costumava sair, sozinho. Não nas noites quentes. Fazia-o somente quando estava frio e as ruas desertas, e quando as pessoas pareciam ter se refugiado em suas casas. Por alguma razão gostava do vento gelado. Por alguma razão o silêncio e a escuridão lhe davam a coragem que faltava em tantas outras coisas de sua vida. Um paradoxo. Mas é como se o mundo, apenas nessas noites, lhe pertencesse. Cada rua, cada árvore, os muros, a fachada das casas, os carros estacionados. Tudo era seu sem qualquer distância, sem intermediários. Ele se comunicava com tudo aquilo, e aquelas coisas lhe diziam coisas. Uma cumplicidade insuspeita, alucinada, mas incrivelmente real. No verão havia uma agitação que tornava tudo menos seu. Mas agora o outono havia chegado. Anoitecia e via no escuro de seu quarto os galhos da árvore plantada na calçada balançando de tal forma que formava na parede aquelas imagens assustadoras e lindas. Ouvia o zunido do vento passando por todas as frestas da casa. Não havia um sentido de solidão, mas apenas o impulso de ir à rua, de percorrer aqueles caminhos, de ver o que tinha de ser visto. A cidade o abraçava. Mas também lhe ocorria que talvez alguém o seguisse nessas noites, ou que, talvez, talvez, alguém experimentasse daquela mesma inquietude, daquela mesma loucura e percorresse aqueles mesmos caminhos, procurando as mesmas respostas das mesmas perguntas que nunca tinham sido feitas. Talvez, talvez.
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