segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

O homem se mede pela ternura

Eu tenho medo. Tenho medo das palavras e do resultado delas. Tenho medo do confronto comigo mesmo, porque desconheço a auto-indulgência. Porque não dissimulo. Porque minha alma é áspera e não me perdoa. Tenho medo de muitas coisas e é difícil falar. Tenho medo às vezes de andar de bicicleta, porque não sei de onde vem um frio na barriga, como se nesse dia fosse morrer. Tenho medo de perder a inspiração e nunca mais escrever. Vou contando o tempo em que estou vazio, em que nada me ocorre, e isso me assusta. Tenho medo de me olhar no espelho, porque muitas vezes não sei quem é essa pessoa que me acompanha todos os dias. Tenho medo dos labirintos onde me meto, porque Deus e o universo me fazem perder a lógica, e é difícil sossegar meu coração quando abro os olhos, porque não sei por quanto tempo estarei aqui. Tenho medo de que minhas crenças todas sejam apenas ilusão. Tenho medo de dormir, porque em sonho não sou nada do que sou. Sou melhor e sou pior, mas não sou quem sou. Tenho medo do tempo, porque ele é implacável e destrói devagar cada coisa que conheço, inclusive a mim mesmo. Tenho medo de não ter mais meus pais. Tenho medo de não ser mais filho. Tenho medo de nunca ser pai. Tenho medo de não deixar atrás de mim um rastro de amor e doçura. Tenho medo da solidão, mas não de qualquer solidão. O que me assusta é a regra inexorável da vida, a vida e seus tentáculos, que levam consigo, aos poucos, a quem amo. Tenho medo de ser o último a partir. Tenho medo do fim da estrada, e que ele chegue antes do fim dos meus planos. Tenho medo de minha mediocridade. Tenho medo de nunca mais ver o sorriso e de não sentir o beijo. Tenho medo de não ter aquele abraço. Tenho medo de viver de sonhos. Mas tenho medo de perder meus sonhos. Tenho medo de uma vida sem legados. Tenho medo da partida e do que vou encontrar. E tenho medo de nada encontrar. E embora tantos medos, e Deus sabe que há muitos outros, nenhum deles engessou minha alma ou me transformou no maior de todos os covardes. Porque de todas as coisas, a mais difícil delas não paralisou meu coração: não tenho medo de amar.

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