sábado, 18 de abril de 2009

Sempre

A palavra que me abriga é sempre
Sempre, que é tão maior do que para sempre
Porque não tem partida
E nem tem começo o que sempre existiu
E qual o gigante que é o mar
Imenso, absoluto, infinito em meus olhos
Trago o universo dentro de mim
Cada partícula e os planetas
Cada palavra e a flexão de todos os verbos
O fogo que queima, a brisa que sopra, as pegadas na areia
O abraço que acalma, o cavalo selvagem, a água que cura
Sou tudo e sou todas as pessoas
Sou o filho e o pai, a mãe e os irmãos
Sou Deus e as estrelas
Sou o todo e sou o sempre
O sempre que não veio antes de agora
O sempre que é depois de hoje
O sempre que sempre será
A palavra que me abriga é sempre
Porque não tem fim o que sempre existiu
De outra forma nada haveria
Eu mesmo não seria

domingo, 5 de abril de 2009

O amor à claridade

Nas distâncias vistas à claridade
Surgiu, enfim, sua maior verdade
Porque mesmo que o tivessem dito por piedade
Por nele virem aquela desconcertante humildade
Tudo agora era mais do que mera possibilidade
De que para esse homem tolo e sem vaidade
Cheio de dor, lágrimas e saudade
Não havia, mesmo, lugar para a maldade
Mas somente a terna ingenuidade
Dessas pessoas que põem o amor à claridade

sexta-feira, 27 de março de 2009

Tum, Tum, Tum, Tum

Qual parte de mim dói mais? Os pés que andaram tanto, tão longe já, ou estes olhos que insistem em buscar? Também tenho um coração, e ele faz Tum, Tum, Tum, Tum. Paro para ouvi-lo no silêncio: até quando? Pareço estar num intervalo sem fim, nesse alguém que não sou eu. Uma vida que não é minha, um sonho do qual é difícil acordar ou o reverso que não consigo ousar. E apesar disso, e apesar de mim, segue o teimoso coração: Tum, Tum, Tum, Tum.

domingo, 15 de março de 2009

Em minhas mãos

As portas estão abertas e não há mais ninguém no caminho. Ponho-me em marcha, a vencer a distância que me separa da grande verdade, qualquer que seja ela. E mesmo que nada pareça real, há a luz que me atravessa a alma e por isso sei que é dia e não noite, que estou vivo e não morto. Surpreendo-me por não sentir medo, porque nem mesmo imagino o que encontrarei fora daqui. Penso em Deus e sua corte de anjos, embora mais me pareça com o demônio e seus soldados de fogo. Rio de minhas tolas pretensões, porque nenhum deles tem qualquer interesse em mim. O fato é que estou por minha conta e risco, sem intermediários, sem representantes ou tutores, sem pai e mãe. Nada me resta senão meu destino e minha consciência, minhas ações e o resultado delas. Eu e mim mesmo. É o que tenho, o irrelevante peso de minha existência.

domingo, 1 de março de 2009

O vôo do pássaro

Mata-me, mata-me agora, mas não tiras o que vai dentro de mim, enraizado fundo no coração. Não removes a melancolia e nem a alegria que são minhas, só minhas. Não apagas meus passos e os dias vividos. Mata-me, mas não me matas, nunca me matarás, estou mais vivo do que nunca. Mata-me, e ainda seguirei nos pensamentos que viajam em alturas das quais não suspeitas e não podes alcançar. Mata-me, que não tenho medo do punhal. Antes que ele me atravesse o peito o pássaro já terá voado longe.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Anatomia

eu não sou o cara
sou só um cara
que tem vergonha na cara
um cara que não tem duas caras
que enfrenta tudo cara a cara
o que falo, falo na cara
porque a verdade me é muito cara

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Tudo é possível

Não houve aviso. Não houve premeditação. Naquele dia sequer pensava em ti. Tinha me esquecido como esqueço sempre, depois de lembrar. Caminhava sob o sol, pés descalços no chão, poucas ilusões, somente calma. A certeza de que tudo estava bem, como deveria estar. Foi aí que te vi, não muito distante, não te movias. Eras todo sorriso, aquele sorriso. Vestias branco, assim como eu. Podíamos estar mortos, no paraíso. Quem sabe. Fui me chegando a ti devagar. O meu um sorriso tímido, que aumentou quando te pude ver melhor. Não dissemos nada, mas lembro dos meus olhos úmidos. Não sei se os teus. Não importa. Tomaste minha mão direita com a tua esquerda. Talvez nessa hora tenhamos levitado ou voado juntos. Tudo é possível. Tudo é absolutamente possível.